Crônica do Alvaro Abreu
Mas pode piorar
Ando
meio saudoso dos meus tempos de rapaz folgado, de cidade pacata à beira
mar. Esses dias de reclusão por causa da insegurança me fizeram lembrar
da vida tranquila que a gente tinha aqui em Vitória há cinquenta anos.
As emoções mais fortes aconteciam nas competições de barco a vela e
mergulhos nas pedras da Ilha do Frade em busca de lagostas, nas
raquetadas de frescobol na Praia do Barracão e subidas ao topo do Mestre
Alvaro com gente animada, nas conversas calibradas para impressionar
mocinha carioca em férias na casa de parentes, nas provas de natação dos
Jogos Praianos e pescarias na Ilha das Caieiras, com o rosto colado ao
som de Minha Namorada na FAFI e o corpo balançando ao som de Satisfaction na
boate Boteco, show dos Mamíferos na Macumba e festivais de música que
Tina Tirone e Chico Lessa sempre venciam, sem falar nos papos-cabeça na
casa de Vitor e Branquinha Santos Neves, nos bate-bocas nas mesas do
Britz Bar e nas risadas atrás do balcão do Miramar ou na varanda do
Michel’s Bar. Os carros eram pouquíssimos, as lanchas bem pequenas e as
festas de quinze anos aconteciam nas casas dos pais.
Essa
saudade brotou logo que acordei com a chuva lá fora e aumentou bastante
quando, em busca de inspiração para escrever, li no jornal: "Não vai
ter carnaval em 29 cidades". A falta de segurança é a principal
justificativa dos prefeitos. As crises na segurança pública são
resultados visíveis do que vem acontecendo com o país faz tempo. Mesmo
que a daqui termine logo, haveremos de conviver com os impactos de seus
desdobramentos.
Fico
com a impressão de que a insensatez, a prepotência e a incompetência
que correram frouxas por aqui vão nos fazer pagar um alto preço pela
volta das condições mínimas de normalidade no Estado. Traumas, sensações
de perda e ressentimentos de toda ordem deverão vigorar na alma de
muita gente, por um bom tempo, influenciando comportamentos de
indivíduos e grupos. Não quero nem pensar nas consequências potenciais
das punições anunciadas, sobretudo das demissões.
Vitória, 22 de fevereiro de 2017
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA



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