11.2.17

Crônica do Alvaro Abreu



Vergonheira


Saí de férias logo depois das prisões explodirem no norte e no nordeste do país, com relatos impressionantes de afronta à condição humana e à justiça. Bandidagem contra bandidagem, medindo força, delimitando território, mostrando que nem tudo está sob o controle do Estado. A ausência de notícias me fez bem. A alienação tem lá suas vantagens.

Ao chegar de volta, soube da greve do pessoal da polícia militar, com familiares portando faixas e cartazes, batendo panelas diante das câmeras, bloqueando a saída da tropa. No domingo à noite, me disseram que meus netos não retornariam às aulas na manhã seguinte porque as escolas estariam fechadas, por medida de segurança. Confesso que achei um tanto exagerado. Na manhã da segunda feira, fui trabalhar ouvindo no rádio notícias sobre saques de lojas, roubo de carros, assaltos à mão armada, muitas mortes, ruas vazias. Acabava assim minha desinformação sobre as dimensões do descalabro que se instalou por aqui, que aterroriza e faz pensar nos seus significados e desdobramentos. Mas ainda nada sei sobre as reais razões e interesses que o motivaram e o sustentam.

A falta de policiamento ostensivo nas ruas abre espaço para bandidos profissionais agirem livremente e, bem pior, cria ambiente para que pessoas comuns também se aventurem na atividade saqueadora, como ocorre quando um caminhão tomba na estrada e derrama a mercadoria no acostamento. Saqueia-se em ritmo frenético, livre de culpa. É o lado bestial orientando pernas e braços, estimulando a conquista de bens alheios, mesmo que ao preço de porções de vergonha e de honra de cada consciência. Sabe-se como é difícil e demorado educar, civilizar, uma pessoa. O que dói e chateia é constatar que esse esforço de fixar valores sociais básicos pode ser aniquilado por esquemas que estimulam corrupção e por decisões que facilitam a prática de violências e crimes em larga escala. É fato que o ser humano precisa de leis e aparatos que o protejam de seus próprios instintos predatórios. Os homens responsáveis pela ordem pública jamais poderiam desconsiderar essa verdade.

Vitória, 08 de fevereiro de 2017
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Um comentário:

João Menéres disse...

Tragicamente uma excelente crónica da realidade actual !

AS POSTAGENS ANTERIORES ESTÃO NO ARQUIVO AÍ NO LADINHO >>>>>

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