30.11.16

MONDRIAN (1872 - 1944)

Jose Luis Fernandez envia um lindo VARAL de Mondrian.
                         Farmhouse with wash on the line (1897) – Oil on cardboard

Crônica diária



Sempre há tempo

Houve um tempo em que eu lia para saber o que os outros andavam escrevendo. Hoje não consigo ler mais de duas páginas, de qualquer autor, de qualquer gênero, sem que tenha duas ou três novas ideias para escrever. Paro e escrevo. E pergunto-me, como pode ter gente sentindo falta de assunto?  O que tenho sentido é falta de tempo para escrever mais, sem deixar de lado o meu hábito de ler. Hábito esse que também me pergunto como pode ter gente que não tenha? Ir ao teatro, já fui bastante, e há muito tempo não vou. Ir ao cinema, vou raramente. Quando vou gosto muito, e me pergunto: por que tenho ido tão pouco?  E para toda pergunta há sempre respostas. O que não gostamos é de ouvi-las. E por isso cada dia nos questionamos menos. Do mesmo modo que não abro mão de bons livros, gostaria de não ter deixado o teatro, cinema, e música de lado. Mas, às vezes, nem sempre tudo é possível. Já parei com o cigarro há meio século. Com o açúcar há um par de anos, e com o sal também. A eles não pretendo voltar, mas ao cinema, teatro e música, ainda há tempo.

29.11.16

Le Jazz

Steak tartare ou Bife tártaro

Mexilhão com batata frita

Crônica diária



Inteligente por natureza

Existe  tipos de pessoas sensíveis e inteligentes por natureza. Geralmente não se enquadram nos padrões comuns. E são de difícil definição. Enveredam pelas humanas, raramente pelas exatas. São jornalistas, poetas, escritores, artistas. Um desses foi Rubem Braga, que estudou direito mas nem o diploma foi buscar. Repórter, jornalista, e o maior dos cronistas brasileiros. A independência intelectual, a simplicidade, e a coerência foram suas marcas. Nunca foi comunista, mas os integralistas o tinham como tal. Os comunistas sabiam que ele não era. Sempre teve uma sensibilidade e inteligência que não o permitiu ser comunista, apesar de sempre preocupado com o social.  Considerava-se um jornalista pequeno-burguês. de um país semicolonialista. Conviveu e foi amigo de todos os melhores intelectuais do seu tempo. Trabalhou para o Assis Chateaubriand sem a ele se subjugar. Cobriu guerra e revoluções com um distanciamento profissional. Os amigos achavam engraçadíssima sua permanente aparência de mau humor. Dizia não rir porque tinha péssimos dentes, e por isso não conhecia o sorriso rasgado, fácil, feliz.  Ao escrever um cuidadoso prefácio para seu primeiro livro "O Conde e o passarinho", nome sugerido por Jorge Amado, diz: " Já escrevi umas duas mil crônicas. É natural, eu vivo disso. Estas aqui não são as melhores; podem dizer que escolhi mal, tanto do ponto de vista literário como do ponto de vista revolucionário. Mas estas representam as outras. Quero dizer que elas também representam a mim. Falam da minhas forças e minhas fraquezas." Este prefácio foi excluído da segunda edição.  Estou deliciando-me com sua biografia escrita por Marco Antonio de Carvalho. E para finalizar, como nenhuma regra deixa de ter suas exceções, conheci recentemente um de seus sobrinhos, o Alvaro Abreu, que apesar de inteligente e sensível, é engenheiro. Engenheiro, colhereiro e cronista de mão cheia.

Comentários que valem um post

Blogger João Menéres disse...
Actualmente, estou com o DANCE COMIGO nos braços, percorrendo o amplo salão que as suas páginas me proporcionam, apreciando o sabor de cada crónica conforme o ritmo que o maestro Lunardelli impõe.
E está a ser uma dança volúpia a cada volta !...

segunda-feira, 28 de novembro de 2016 06:42:00 BRST
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28.11.16

Biblioteca do Clube Harmonia, SP

Biblioteca do Clube Harmonia. Out 2016

Crônica diária

Os longos caminhos de uma imagem

Estava a procura do tema do texto de hoje, com o olhar perdido no monitor do meu notebook, onde a imagem era de uma foto enviada pelo José Luis Fernandez, de Niterói. Meu ultimo livro, "Dance comigo" entre capas de discos 33 rotações. Quantas lembranças essa bailarina da capa não me trás. Quantas não despertarão, entre os leitores,  ao longo dos próximos anos. As primeiras são só minhas. Um pequeno retrato no jornal. Depois a montagem do chassis de madeira com 168 x 168 cm. Esticar e pregar a lona. Duas mãos de tinta branca fosca de base. Depois o desenho com carvão. E por derradeiro e mais prazeroso a pintura. A tela é datada de 2004. Onze anos depois, convidei meu filho Guilherme para fotografar. No ano seguinte estava decidido que "A bailarina" seria a capa do novo livro. O nome da tela não me convencia para nomear o livro com 300 crônicas. Amarguei essa procura até encontrar "Dance comigo". Gostei do achado. Dei para o próprio Guilherme a tarefa de criar a capa com a foto. Aí já não era mais uma pintura, muito menos o retrato da bailarina. Era uma fotografia que viraria capa de livro. Vai para a gráfica, e vem o livro pronto. Já não é uma pintura, nem retrato, nem fotografia. É um livro. E essa capa vai despertando emoções, memórias e imaginação. O livro em Niterói, ao lado do disco do Vinícius tocando e cantando. Vinícius que conheci numa manhã de domingo em São Paulo, em companhia do Américo Marques da Costa,   quando fomos beber um aperitivo num bar de uma galeria da Avenida São Luiz. Nunca havia estado antes. Nunca mais voltei. Imaginem vocês eu bebendo numa manhã de domingo. Só o Americão e o Vinícius para justificarem essa façanha. Quarenta anos depois Vinícius na capa do disco, ao lado da capa da minha bailarina. Ele e ela em Niterói. Tudo pelas mãos e objetiva (ou será um celular?) do José Luis. Quanta história não rolou antes desse improvável encontro. Não fosse minha amizade com o Americão, não teria bebido num bar com o Vinícius. Não fosse o Colégio de Cataguases, não teria conhecido o José Luis. E não fosse a internet, esse encontro não seria possível. E assim caminha a humanidade.

27.11.16

Contra luz

Out. 2016

Crônica diária

A Constituição

Getúlio Vargas deixava bem claro: "A Constituição é como virgem, nasceu para ser violada". Hoje a jovem Constituição de 5 de outubro de 1988, com seus 28 aninhos de existência, tendo um STF diuturnamente a incumbência de  guarda-la livre de grandes violações, é constantemente emendada. A virgindade constitucional não tem mais a importância que um hímen já teve. Hoje as PECs vão lhe dando o formato que o momento exige. Constituintes prolixas, como a nossa, carecem de constantes interpretações e emendas. Já estamos na sétima. A todo instante se ouve falar na necessidade de reforma-la. Deveríamos a exemplo dos Estados Unidos criar uma constituição com no máximo cinco páginas, não necessariamente de pergaminho, mas com sete artigos e vinte e sete emendas. Tudo o que não pode esta lá. Não estando, pode. Ficaríamos menos tentados a viola-la, e não precisaríamos estar emendando a todo momento.

José Jaime Rocha Siqueira & senhora


    Agradeço muito ao casal de amigos, especialmente ao fotógrafo de bons varais., e meu leitor fiel.

JANTAR SECRETO de Raphael Montes

 Aceitei o convite
 Jantar secreto
Raphael Montes

26.11.16

Piacaba, outubro de 2016

Jardim e bandeira
Peixe velho no deck novo

Crônica diária



Trump nos Estados Unidos
 
Sei que tenho leitores que esperavam minha manifestação logo no dia seguinte à surpreendente eleição presidencial americana. Se os frustrei, não foi por acaso. Sobre o assunto, o mais relevante, no momento, é o total vexame das previsões. Com exceção de um único jornal, que ironicamente apoiava Hillary,  e previu a vitória do republicano, toda a mídia errou redondamente. Esse sim é um fato relevante neste momento. Quanto lamentar ou especular sobre o que será da América é absolutamente prematuro. Dia 20 de Janeiro, portanto daqui a dois meses, tomará posse o presidente eleito. Só a partir de então saberemos a que veio o bilionário, não político, Donald Trump. E quando minhas crônicas forem abordar esse tema, elas já estarão fazendo parte de um novo livro, "Pre´textos", com mais 300 textos, que sucederão ao "Intimidades crônicas". E assim caminha a humanidade.

25.11.16

Paisagem clássica

Piacaba, Out. 2016

Crònica diária

Revisores

Esta semana foi dos revisores de texto. Não seu dia do ano que é 28 de março, mas uma semana onde o tema me caiu nas mãos. Primeiro foi o José Luis Fernandez que me enviou uma crônica da Martha Medeiros falando da relação do escritor e seus revisores. Depois lendo a biografia do Rubem Braga encontro este depoimento: " ...minha letra é tão ruim que, em sinal de respeito aos meus prezados inimigos da revisão, vou escrever outra vez....". Eu tive algumas experiências com esses profissionais. Ana Luiza Couto revisou meu livro "O Último Blog". Jornalista com carreira na Editora Abril, fui conhece-la pessoalmente num almoço que ofereci a ela, e à Fernanda do Val, que fez a diagramação, um exemplar. Qual não foi minha decepção quando soube que não tinham lido o livro. Fazem seu trabalho sem prestar atenção no texto. Depois delas, todos os outros foram revisados pela Estela Salles, e um deles com Guilherme Salgado Rocha. Com a Estela criei uma parceria muito produtiva. Deixou de ser "uma inimiga" como qualificou o Rubem. A Estela já se acostumou com os vezemquando, tudo junto, que adotei do Caio F. e outras bobagens.

24.11.16

Perereca na janela

Manhã chuvosa

Crônica diária

 Volto ao livro "Mortais"

Como prometi, volto a comentar o importante livro "Mortais" do médico e escritor norte americano, filho de um casal de médicos indianos. Atul Gawande defende que a medicina e seus operadores, médicos, enfermeiros, hospitais, planos de saúde e casas de repouso não cuidam dos idosos de forma adequada. Procuram, à qualquer custo e preço, prolongar a vida dos enfermos em estado terminal, quando deveriam buscar apenas seu conforto e felicidade, no que lhes resta de vida. Escrito de forma simples e compreensível para os leigos é um verdadeiro alerta à classe médica e a todas as pessoas que lidam com o problema. De resto todos nós um dia vamos enfrentar esse dilema. A morte é a única certeza desta vida. E o livro procura nos orientar como encara-la, não sob o ponto espiritual, mas clínico e hospitalar. Pretendo dar de presente um exemplar desse livro para todos os médicos com quem convivo. E recomendo sua leitura a todo idoso ou familiar de idosos. Obrigado Ducha pelo presente.

23.11.16

Ensaio com gato







Um ensaio (gosto dessa palavra) da cabeça e do gato. As curvas são parecidas. Out. 2016. Piacaba

Crônica diária



Amor e posse

Seguindo uma tendência depois do boom dos chefes de cozinha na TV, agora é a vez dos pensadores. Recentemente a Bandeirantes lançou a coluna  diária "Careca de Saber", com o historiador Leandro Karnal. Professor da Unicamp, formado pela USP, especialista em história das religiões, fala sobre, filosofia, política, ética e comportamento, além dos temas que mexem com o cotidiano das pessoas. Tenho certeza que esse tipo de coluna, repetida várias vezes ao dia, durante a programação, é uma nova tendência na TV brasileira. Os animais e o homem nascem com duas características semelhantes. Uma é o amor, outra a posse. No reino animal as demonstrações de amor e posse das galinhas com seus pintinhos, da vaca com seu bezerro, da leoa com suas crias e assim por diante. No caso humano não é diferente. Um dia desses estava no parquinho com minha neta de dois anos quando um garotinho, mais velho uns três anos, se aproximou de mim e puxou conversa. Ela imediatamente correu na minha direção, agarrou  meu joelho, encostou a cabeça e disse, baixo, mas bastante audível: " Meu avô". O garotinho ficou imóvel de olhos arregalados. Eu tive que salva-lo dizendo para ela que o menino era meu amigo. Ele com um olhar menos espantado, aquiesceu. Só estava me contando que o carrinho que tinha nas mãos mudava de cor dentro d´água. Quando a posse do avô pareceu ameaçada, minha neta, instintivamente, reagiu. Demonstrou com isso amor. Esse acontecimento me remeteu aos comentários do Karnal, que faz uma coluna que estamos "Careca de Saber". 

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