Crônica diária
Cheiro de juventude
Leonardo que só tem três anos mais do
que eu conversamos esta semana. Eu comecei dizendo que estava achando-o muito
bem fisicamente. Ele confirmou que nunca se sentiu melhor. E retruquei que não
era para tanto. Rimos. Depois comentou sobre o livro que dei para ele ler. A
biografia do Rubem Braga. E ele citou o fato do Braga ter morrido com a sua
idade. Eu concordei, mas disse que o Rubem parecia mais velho.E bebeu muito
mais... Leonardo abaixou a cabeça, parecia estar procurando alguma coisa na
ponta do sapato, e ponderou, câncer não tem idade. E naquele tempo ainda era
pior. Mas vamos falar de coisas boas da vida e não da morte do Rubem. É verdade,
e o livro tem passagens deliciosas. Aquela em que ele se diz estar ficando
broxa, e que teve que ir ao dicionário para saber se broxa era com ch ou com x,
é muito divertida. Pois é, disse o Leonardo, a gente vai ficando velho mas não
perde-se o faro. Como assim? perguntei. Ontem fui ao Silverinha, que para quem
não sabe é um mercado bem simples, com umas dez gôndolas, de tudo um pouco, e
cruzei com duas jovenzinhas de quinze ou dezesseis anos, vestidinhas com
uniforme escolar, saia azul, blusa sem porta seios, e meias soquete brancas com
sapato preto. Saia pelo joelho. Passaram por mim entretidas entre si. Mas pude
sentir o cheiro maravilhoso do viço juvenil. Sem nenhum cuidado especial,
cabelos soltos, nenhuma maquiagem, exalam um aroma de fruta fresca. Por acaso
estávamos longe da banca de frutas. Caso contrário o cheiro de manga
rosa, e outras da estação confundiriam o aroma suave, mas característico, de
fruta saborosa que tinham as meninas inocentes e altamente virginais. A pele
que parecia de pêssegos maduros. Os gestos espontâneos e sem afetação. A
alegria estampada nos olhos brilhantes e no sorriso de canto de boca, fruto de
algum comentário sacana que segredavam entre si. E tudo isso em frações de
segundos. Passaram por mim, e deixaram todas essas lembranças e referências.
Foram para o caixa e de lá para a vida. Leonardo suspirou, e parecia vinte anos
mais jovem. Uma semana depois desse encontro e dialogo leio no
"Mascaras" de Leonardo Padura: "...nunca pude me negar à contemplação
às vezes desesperada da beleza de uma moça em flôr, porque estou
convencido de que não há outra beleza terrena que supere esse calor que brota
da juventude".


Um comentário:
Pois é, fruta fresca faz a diferença.
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