28.12.16

Crônica diária



Cheiro de juventude

Leonardo que só tem três anos mais do que eu conversamos esta semana. Eu comecei dizendo que estava achando-o muito bem fisicamente. Ele confirmou que nunca se sentiu melhor. E retruquei que não era para tanto. Rimos. Depois comentou sobre o livro que dei para ele ler. A biografia do Rubem Braga. E ele citou o fato do Braga ter morrido com a sua idade. Eu concordei, mas disse que o Rubem parecia mais velho.E bebeu muito mais... Leonardo abaixou a cabeça, parecia estar procurando alguma coisa na ponta do sapato, e ponderou, câncer não tem idade. E naquele tempo ainda era pior. Mas vamos falar de coisas boas da vida e não da morte do Rubem. É verdade, e o livro tem passagens deliciosas. Aquela em que ele se diz estar ficando broxa, e que teve que ir ao dicionário para saber se broxa era com ch ou com x, é muito divertida. Pois é, disse o Leonardo, a gente vai ficando velho mas não perde-se o faro. Como assim? perguntei. Ontem fui ao Silverinha, que para quem não sabe é um mercado bem simples, com umas dez gôndolas, de tudo um pouco, e cruzei com duas jovenzinhas de quinze ou dezesseis anos, vestidinhas com uniforme escolar, saia azul, blusa sem porta seios, e meias soquete brancas com sapato preto. Saia pelo joelho. Passaram por mim entretidas entre si. Mas pude sentir o cheiro maravilhoso do viço juvenil. Sem nenhum cuidado especial, cabelos soltos, nenhuma maquiagem, exalam um aroma de fruta fresca. Por acaso estávamos longe  da banca de frutas. Caso contrário o cheiro de manga rosa, e outras da estação confundiriam o aroma suave, mas característico, de fruta saborosa que tinham as meninas inocentes e altamente virginais. A pele que parecia de pêssegos maduros. Os gestos espontâneos e sem afetação. A alegria estampada nos olhos brilhantes e no sorriso de canto de boca, fruto de algum comentário sacana que segredavam entre si. E tudo isso em frações de segundos. Passaram por mim, e deixaram todas essas lembranças e referências. Foram para o caixa e de lá para a vida. Leonardo suspirou, e parecia vinte anos mais jovem. Uma semana depois desse encontro e dialogo leio no "Mascaras" de Leonardo Padura: "...nunca pude me negar à contemplação às vezes desesperada da beleza de uma  moça em flôr, porque estou convencido de que não há outra beleza terrena que supere esse calor que brota da juventude".

Um comentário:

Jorge Pinheiro disse...

Pois é, fruta fresca faz a diferença.

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