23.11.16

Crônica do Alvaro Abreu


Varal retrátil


Preferi trabalhar cedo, enquanto estivesse fresco. Nuvens carregadas e a total falta de vento anunciavam calor de mormaço na manhã de domingo e o serviço que tinha pela frente exigiria esforço físico: atender uma demanda antiga da dona da casa, reafirmada sempre que a quantidade de roupa suja se acumulava. O varal que havia no fundo do quintal dera lugar à horta suspensa e os varais da área de serviço só dão conta da roupa de casa de poucos filhos. Jamais da casa lotada, como acontece nos períodos de férias que estão pra chegar, o que fez a pressão por providências subir para níveis críticos.

Tem tempo que procurava uma solução que atendesse requisitos e exigências de estética, funcionalidade e robustez. Sim, um varal que vai ficar na lateral da casa, além de ser capaz de sustentar o peso da roupa molhada, há de ser discreto. O ideal é que, quando vazio, ele pudesse ser desarmado e encostado na parede, sem representar perigo para menino correndo. Quando necessário, ele seria armado na posição horizontal. Além disso, ele precisaria ser comprido, para receber colchas e lençóis abertos. E é justamente aqui que aparecem as exigências de robustez: o varal deveria ser firme e forte o suficiente para suportar peso relevante.

Como se vê, uma espécie de quebra-cabeça para um engenheiro experiente equacionar com bom senso apurado, criatividade interativa, alguma competência técnica, e, sobretudo, valendo-se das ferramentas e dos infindáveis recursos materiais que guarda em armário repleto, desses de fazer inveja a qualquer MacGyver da TV. Ali, aplicando a máxima quem procura, acha, encontro praticamente tudo o que se fizer necessário para montar geringonças diversas, inclusive varais de todos os tipos e tamanhos.

Uma parte importante do problema de engenharia foi resolvida na venda de um conhecido, a que recorro sempre que preciso do que não existe nas lojas modernas. Como cera de carnaúba para cadeira de balanço. Desta vez, em atitude de desafio, pedimos uma armação de varal que fosse retrátil. A vendedora, mais do que experiente, voltou lá dos fundos com um par de armadores, desses que são usados nas mesas presas na parede, armadas quando necessário. Bem que poderia servir. Prudente, pedi uma barra de alumínio de três metros em formato de L para dar sustentação ao conjunto, que teria cabos de aços revestidos para receber a roupa. Escolhi presilhas, parafusos grandes e respectivas buchas para fixação. Aproveitei para comprar meio quilo de pregos variados a preço de banana, evitando ter que comprá-los em caixinhas de plástico, a preço de ouro. Isso foi no sábado, pela manhã.

No domingo, ainda na cama, passei em revista as providências para finalizar o projeto completo, fazer os testes funcionais e executar o serviço de preparação das partes. Comecei por serrar dois pedaços de caibro de uns vinte centímetros, onde seriam fixados os armadores, e fiz os furos para os parafusos que os prenderiam na parede. Em seguida lixei a madeira e arredondei as quinas. Por precaução, achei melhor reforçar a haste de sustentação dos armadores, que me pareceram frágeis frente às suas responsabilidades estruturais. Furei as pontas da vara de alumínio, separei os parafusos e porcas que iriam fixá-la e, todo satisfeito, dei por finalizada essa etapa do serviço. De banho tomado e com total disposição, fui comer os caranguejos graúdos que meu cunhado Neném prepara como ninguém. A felicidade dominical só não foi maior porque eu sou torcedor convicto do Fluminense e ele é vascaíno doente.    

Vitória, 10 de dezembro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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