28.11.16

Crônica diária

Os longos caminhos de uma imagem

Estava a procura do tema do texto de hoje, com o olhar perdido no monitor do meu notebook, onde a imagem era de uma foto enviada pelo José Luis Fernandez, de Niterói. Meu ultimo livro, "Dance comigo" entre capas de discos 33 rotações. Quantas lembranças essa bailarina da capa não me trás. Quantas não despertarão, entre os leitores,  ao longo dos próximos anos. As primeiras são só minhas. Um pequeno retrato no jornal. Depois a montagem do chassis de madeira com 168 x 168 cm. Esticar e pregar a lona. Duas mãos de tinta branca fosca de base. Depois o desenho com carvão. E por derradeiro e mais prazeroso a pintura. A tela é datada de 2004. Onze anos depois, convidei meu filho Guilherme para fotografar. No ano seguinte estava decidido que "A bailarina" seria a capa do novo livro. O nome da tela não me convencia para nomear o livro com 300 crônicas. Amarguei essa procura até encontrar "Dance comigo". Gostei do achado. Dei para o próprio Guilherme a tarefa de criar a capa com a foto. Aí já não era mais uma pintura, muito menos o retrato da bailarina. Era uma fotografia que viraria capa de livro. Vai para a gráfica, e vem o livro pronto. Já não é uma pintura, nem retrato, nem fotografia. É um livro. E essa capa vai despertando emoções, memórias e imaginação. O livro em Niterói, ao lado do disco do Vinícius tocando e cantando. Vinícius que conheci numa manhã de domingo em São Paulo, em companhia do Américo Marques da Costa,   quando fomos beber um aperitivo num bar de uma galeria da Avenida São Luiz. Nunca havia estado antes. Nunca mais voltei. Imaginem vocês eu bebendo numa manhã de domingo. Só o Americão e o Vinícius para justificarem essa façanha. Quarenta anos depois Vinícius na capa do disco, ao lado da capa da minha bailarina. Ele e ela em Niterói. Tudo pelas mãos e objetiva (ou será um celular?) do José Luis. Quanta história não rolou antes desse improvável encontro. Não fosse minha amizade com o Americão, não teria bebido num bar com o Vinícius. Não fosse o Colégio de Cataguases, não teria conhecido o José Luis. E não fosse a internet, esse encontro não seria possível. E assim caminha a humanidade.

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