17.11.16

Crônica diária

A camisinha e eu

As mais remotas lembranças do quarto dos meus pais na fazenda são do pequeno criado mudo, de madeira escura, e tampo de mármore cinza, com uma gaveta e chave na fechadura. Cartas e gavetas de terceiros não se toca. Essa era a educação recebida pela minha mãe. Mas a curiosidade infantil era maior. Abrir as gavetas das mesinhas de cabeceira dos meus pais era violar regras. O da minha mãe tinha o terço, e uns paninhos do tamanho de lenços brancos, só que de tecido semelhante a pano de prato. Nada de interessante. A gaveta do meu pai era mais excitante. Tinha dois ou três envelopes de papel, amarelados pelo tempo, e ao apalpa-los identificava um aro, que supunha de borracha, porque eram bastante flexíveis. Tinham a dimensão de um monóculo. Para que deveria servir aquilo? Muito mais tarde, na puberdade, enfrentei com minha timidez e pudores, o ato de procurar uma farmácia em outro bairro,  longe de casa, e depois de longas análises, do lado oposto da calçada, criar coragem e entrar, torcendo para não ser atendido pela mocinha do balcão. Tinha que ser pelo farmacêutico que em geral era o dono da farmácia. A vergonha que tinha de pedir um preservativo era aterradora. Na farmácia do bairro, nem pensar. A moça e o seu Luiz, magro, com jaleco branco, e um bigodinho a la Clark Gable, eram conhecidos da minha mãe. Tinham aplicado muita injeção, no que chamavam à época, popo. A palavra bunda nem pensar. Naquele tempo não existiam gôndulas nas farmácias. Tudo era atrás do balcão. Pedir um preservativo para a moça atendente era impensável. Ou melhor, o que ela iria pensar de mim. Mas foi depois dessas batalhas íntimas que consegui comprar e conhecer melhor o conteúdo daqueles envelopes da gaveta do meu pai. Já não era  mais de papel a embalagem, mas de um material que parecia metálico. Uns tinham até lubrificante. E haviam os coloridos. Fiquei um expert em camisinhas. Hoje, em véspera de carnaval, encontro cestinhas, no balcão de postos de gasolina, ou de lojas de conveniências, com camisinha gratuita fornecidas pelo Ministério da Saúde. Olho aquilo, que pode ser levado gratuitamente, como bala em saída de churrascaria, sem que ninguém se importe, e lembro-me dos tempos que não existia a AIDs e preservativo era uma coisa de que não se falava abertamente. Os tempos mudaram, mas meus pudores infantis ficaram lá pra sempre. 

2 comentários:

João Menéres disse...

Uma dúvida, uma pergunta que se multiplicou em tantos jovens pelo mundo fora !...
Uma crónica - mais uma ! - muito bem escrita, Eduardo !
Como só o Eduardo sabe descrever situações pelas quais quase todos dos seus leitores ( e não só ) se confrontaram !

Jorge Pinheiro disse...

O papel das farmácias também mudou muito. Agora querem é vender.

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