30.11.16
Crônica diária
Sempre há tempo
Houve um tempo em que eu lia para saber
o que os outros andavam escrevendo. Hoje não consigo ler mais de duas páginas,
de qualquer autor, de qualquer gênero, sem que tenha duas ou três novas ideias
para escrever. Paro e escrevo. E pergunto-me, como pode ter gente sentindo
falta de assunto? O que tenho sentido é falta de tempo para escrever
mais, sem deixar de lado o meu hábito de ler. Hábito esse que também me
pergunto como pode ter gente que não tenha? Ir ao teatro, já fui bastante, e há
muito tempo não vou. Ir ao cinema, vou raramente. Quando vou gosto muito, e me
pergunto: por que tenho ido tão pouco? E para toda pergunta há sempre
respostas. O que não gostamos é de ouvi-las. E por isso cada dia nos
questionamos menos. Do mesmo modo que não abro mão de bons livros, gostaria de
não ter deixado o teatro, cinema, e música de lado. Mas, às vezes, nem sempre
tudo é possível. Já parei com o cigarro há meio século. Com o açúcar há um par
de anos, e com o sal também. A eles não pretendo voltar, mas ao cinema, teatro
e música, ainda há tempo.
29.11.16
Crônica diária
Inteligente por natureza
Existe tipos de pessoas sensíveis
e inteligentes por natureza. Geralmente não se enquadram nos padrões comuns. E
são de difícil definição. Enveredam pelas humanas, raramente pelas exatas. São
jornalistas, poetas, escritores, artistas. Um desses foi Rubem Braga, que
estudou direito mas nem o diploma foi buscar. Repórter, jornalista, e o maior
dos cronistas brasileiros. A independência intelectual, a simplicidade, e a
coerência foram suas marcas. Nunca foi comunista, mas os integralistas o tinham
como tal. Os comunistas sabiam que ele não era. Sempre teve uma sensibilidade e
inteligência que não o permitiu ser comunista, apesar de sempre preocupado com
o social. Considerava-se um jornalista pequeno-burguês. de um país
semicolonialista. Conviveu e foi amigo de todos os melhores intelectuais do seu
tempo. Trabalhou para o Assis Chateaubriand sem a ele se subjugar. Cobriu
guerra e revoluções com um distanciamento profissional. Os amigos achavam
engraçadíssima sua permanente aparência de mau humor. Dizia não rir porque
tinha péssimos dentes, e por isso não conhecia o sorriso rasgado, fácil,
feliz. Ao escrever um cuidadoso prefácio para seu primeiro livro "O
Conde e o passarinho", nome sugerido por Jorge Amado, diz: " Já
escrevi umas duas mil crônicas. É natural, eu vivo disso. Estas aqui não são as
melhores; podem dizer que escolhi mal, tanto do ponto de vista literário como
do ponto de vista revolucionário. Mas estas representam as outras. Quero dizer
que elas também representam a mim. Falam da minhas forças e minhas
fraquezas." Este prefácio foi excluído da segunda edição. Estou
deliciando-me com sua biografia escrita por Marco Antonio de Carvalho. E para
finalizar, como nenhuma regra deixa de ter suas exceções, conheci recentemente
um de seus sobrinhos, o Alvaro Abreu, que apesar de inteligente e sensível, é
engenheiro. Engenheiro, colhereiro e cronista de mão cheia.
28.11.16
Crônica diária
Os longos caminhos de uma imagem
Estava a procura do tema do texto de hoje, com o olhar perdido no
monitor do meu notebook, onde a imagem era de uma foto enviada pelo José
Luis Fernandez, de Niterói. Meu ultimo livro, "Dance comigo" entre
capas de discos 33 rotações. Quantas lembranças essa bailarina da capa
não me trás. Quantas não despertarão, entre os leitores, ao longo dos
próximos anos. As primeiras são só minhas. Um pequeno retrato no jornal.
Depois a montagem do chassis de madeira com 168 x 168 cm. Esticar e
pregar a lona. Duas mãos de tinta branca fosca de base. Depois o desenho
com carvão. E por derradeiro e mais prazeroso a pintura. A tela é
datada de 2004. Onze anos depois, convidei meu filho Guilherme para
fotografar. No ano seguinte estava decidido que "A bailarina" seria a
capa do novo livro. O nome da tela não me convencia para nomear o livro
com 300 crônicas. Amarguei essa procura até encontrar "Dance comigo".
Gostei do achado. Dei para o próprio Guilherme a tarefa de criar a capa
com a foto. Aí já não era mais uma pintura, muito menos o retrato da
bailarina. Era uma fotografia que viraria capa de livro. Vai para a
gráfica, e vem o livro pronto. Já não é uma pintura, nem retrato, nem
fotografia. É um livro. E essa capa vai despertando emoções, memórias e
imaginação. O livro em Niterói, ao lado do disco do Vinícius tocando e
cantando. Vinícius que conheci numa manhã de domingo em São Paulo, em
companhia do Américo Marques da Costa, quando fomos beber um aperitivo
num bar de uma galeria da Avenida São Luiz. Nunca havia estado antes.
Nunca mais voltei. Imaginem vocês eu bebendo numa manhã de domingo. Só o
Americão e o Vinícius para justificarem essa façanha. Quarenta anos
depois Vinícius na capa do disco, ao lado da capa da minha bailarina.
Ele e ela em Niterói. Tudo pelas mãos e objetiva (ou será um celular?)
do José Luis. Quanta história não rolou antes desse improvável encontro.
Não fosse minha amizade com o Americão, não teria bebido num bar com o
Vinícius. Não fosse o Colégio de Cataguases, não teria conhecido o José
Luis. E não fosse a internet, esse encontro não seria possível. E assim
caminha a humanidade.
27.11.16
Crônica diária
A Constituição
Getúlio Vargas deixava bem claro: "A Constituição é como virgem, nasceu
para ser violada". Hoje a jovem Constituição de 5 de outubro de 1988,
com seus 28 aninhos de existência, tendo um STF diuturnamente a
incumbência de guarda-la livre de grandes violações, é constantemente
emendada. A virgindade constitucional não tem mais a importância que um
hímen já teve. Hoje as PECs vão lhe dando o formato que o momento exige.
Constituintes prolixas, como a nossa, carecem de constantes
interpretações e emendas. Já estamos na sétima. A todo instante se ouve
falar na necessidade de reforma-la. Deveríamos a exemplo dos Estados
Unidos criar uma constituição com no máximo cinco páginas, não
necessariamente de pergaminho, mas com sete artigos e vinte e sete
emendas. Tudo o que não pode esta lá. Não estando, pode. Ficaríamos
menos tentados a viola-la, e não precisaríamos estar emendando a todo
momento.
José Jaime Rocha Siqueira & senhora
Jose Jaime Lendo na Rodoviária de Juiz de Fora .
Agradeço muito ao casal de amigos, especialmente ao fotógrafo de bons varais., e meu leitor fiel.
26.11.16
Crônica diária
Trump nos Estados Unidos
Sei que tenho leitores que esperavam
minha manifestação logo no dia seguinte à surpreendente eleição presidencial
americana. Se os frustrei, não foi por acaso. Sobre o assunto, o mais
relevante, no momento, é o total vexame das previsões. Com exceção de um único
jornal, que ironicamente apoiava Hillary, e previu a vitória do
republicano, toda a mídia errou redondamente. Esse sim é um fato relevante
neste momento. Quanto lamentar ou especular sobre o que será da América é
absolutamente prematuro. Dia 20 de Janeiro, portanto daqui a dois meses, tomará
posse o presidente eleito. Só a partir de então saberemos a que veio o
bilionário, não político, Donald Trump. E quando minhas crônicas forem abordar
esse tema, elas já estarão fazendo parte de um novo livro,
"Pre´textos", com mais 300 textos, que sucederão ao "Intimidades
crônicas". E assim caminha a humanidade.
25.11.16
Crònica diária
Revisores
Esta semana foi dos revisores de texto. Não seu dia do ano que é 28 de março, mas uma semana onde o tema me caiu nas mãos. Primeiro foi o José Luis Fernandez que me enviou uma crônica da Martha Medeiros falando da relação do escritor e seus revisores. Depois lendo a biografia do Rubem Braga encontro este depoimento: " ...minha letra é tão ruim que, em sinal de respeito aos meus prezados inimigos da revisão, vou escrever outra vez....". Eu tive algumas experiências com esses profissionais. Ana Luiza Couto revisou meu livro "O Último Blog". Jornalista com carreira na Editora Abril, fui conhece-la pessoalmente num almoço que ofereci a ela, e à Fernanda do Val, que fez a diagramação, um exemplar. Qual não foi minha decepção quando soube que não tinham lido o livro. Fazem seu trabalho sem prestar atenção no texto. Depois delas, todos os outros foram revisados pela Estela Salles, e um deles com Guilherme Salgado Rocha. Com a Estela criei uma parceria muito produtiva. Deixou de ser "uma inimiga" como qualificou o Rubem. A Estela já se acostumou com os vezemquando, tudo junto, que adotei do Caio F. e outras bobagens.
Esta semana foi dos revisores de texto. Não seu dia do ano que é 28 de março, mas uma semana onde o tema me caiu nas mãos. Primeiro foi o José Luis Fernandez que me enviou uma crônica da Martha Medeiros falando da relação do escritor e seus revisores. Depois lendo a biografia do Rubem Braga encontro este depoimento: " ...minha letra é tão ruim que, em sinal de respeito aos meus prezados inimigos da revisão, vou escrever outra vez....". Eu tive algumas experiências com esses profissionais. Ana Luiza Couto revisou meu livro "O Último Blog". Jornalista com carreira na Editora Abril, fui conhece-la pessoalmente num almoço que ofereci a ela, e à Fernanda do Val, que fez a diagramação, um exemplar. Qual não foi minha decepção quando soube que não tinham lido o livro. Fazem seu trabalho sem prestar atenção no texto. Depois delas, todos os outros foram revisados pela Estela Salles, e um deles com Guilherme Salgado Rocha. Com a Estela criei uma parceria muito produtiva. Deixou de ser "uma inimiga" como qualificou o Rubem. A Estela já se acostumou com os vezemquando, tudo junto, que adotei do Caio F. e outras bobagens.
24.11.16
Crônica diária
Volto ao livro "Mortais"
Como prometi, volto a comentar o importante livro "Mortais" do médico e
escritor norte americano, filho de um casal de médicos indianos. Atul
Gawande defende que a medicina e seus operadores, médicos, enfermeiros,
hospitais, planos de saúde e casas de repouso não cuidam dos idosos de
forma adequada. Procuram, à qualquer custo e preço, prolongar a vida dos
enfermos em estado terminal, quando deveriam buscar apenas seu conforto
e felicidade, no que lhes resta de vida. Escrito de forma simples e
compreensível para os leigos é um verdadeiro alerta à classe médica e a
todas as pessoas que lidam com o problema. De resto todos nós um dia
vamos enfrentar esse dilema. A morte é a única certeza desta vida. E o
livro procura nos orientar como encara-la, não sob o ponto espiritual,
mas clínico e hospitalar. Pretendo dar de presente um exemplar desse
livro para todos os médicos com quem convivo. E recomendo sua leitura a
todo idoso ou familiar de idosos. Obrigado Ducha pelo presente.
23.11.16
Crônica diária
Amor e posse
Seguindo uma tendência depois do boom
dos chefes de cozinha na TV, agora é a vez dos pensadores. Recentemente a
Bandeirantes lançou a coluna diária "Careca de Saber", com o
historiador Leandro Karnal. Professor da Unicamp, formado pela USP,
especialista em história das religiões, fala sobre, filosofia, política, ética
e comportamento, além dos temas que mexem com o cotidiano das pessoas. Tenho
certeza que esse tipo de coluna, repetida várias vezes ao dia, durante a programação,
é uma nova tendência na TV brasileira. Os animais e o homem nascem com duas
características semelhantes. Uma é o amor, outra a posse. No reino animal as
demonstrações de amor e posse das galinhas com seus pintinhos, da vaca com seu
bezerro, da leoa com suas crias e assim por diante. No caso humano não é
diferente. Um dia desses estava no parquinho com minha neta de dois anos quando
um garotinho, mais velho uns três anos, se aproximou de mim e puxou conversa.
Ela imediatamente correu na minha direção, agarrou meu joelho, encostou a
cabeça e disse, baixo, mas bastante audível: " Meu avô". O garotinho
ficou imóvel de olhos arregalados. Eu tive que salva-lo dizendo para ela que o
menino era meu amigo. Ele com um olhar menos espantado, aquiesceu. Só estava me
contando que o carrinho que tinha nas mãos mudava de cor dentro d´água. Quando
a posse do avô pareceu ameaçada, minha neta, instintivamente, reagiu.
Demonstrou com isso amor. Esse acontecimento me remeteu aos comentários do
Karnal, que faz uma coluna que estamos "Careca de Saber".
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Falaram do Varal:
"...o Varal de Ideias é uma referência de como um blog deve ser ." Agnnes
(Caminhos e Atalhos, no mundo dos blogs)..."parabéns pelo teu exemplo de como realmente se faz um blog...ou melhor tantos e sempre outstandings...".
(Vi Leardi )




E está a ser uma dança volúpia a cada volta !...