18.10.16

Crônica do Alvaro Abreu



Eleição com vento sul

Sou do tempo que os pescadores precisavam dominar a meteorologia pra viver. Eles se valiam da leitura das nuvens e dos ventos e previam a chegada de frente fria um dia depois que ela se instalasse no Rio de Janeiro. O vento sul sempre trazia três dias de chuva fininha e persistente, dessas que vai molhando a plantação aos pouquinhos e encharcando a terra lentamente. Nada parecido com a ignorância dos temporais avassaladores, que derrubam árvores, destelham barracos, inundam as ruas e fazem transbordar os rios. Tio Newton usava uma expressão muito boa para designar, com a força dos poetas, o aguaceiro pesado: dizia que era chuva de corda. 

Por fazer gelar até a alma, a chuvinha de vento sul nos faz pensar com mais calma e sentir a vida passando sem pressa. Os pingos miudinhos e em grande quantidade acabam por inibir atitudes impensadas e tornam as pessoas menos arrojadas. Visto pela janela, o mundo se mostra cinzento e lugar de pouquíssima movimentação.

Pois o domingo amanheceu com uma dessas chuvinhas de antigamente. Era dia de eleição de prefeitos e vereadores, agora regulada por novas regras, incluindo a proibição de financiamento empresarial de campanha. Para acabar de danar, a Lava Jato deve ter inibido a compra de candidatos e facilitado a vida dos que são achacados por tesoureiros de todo tipo.

Aproveitei a estiagem para ir votar no colégio na pracinha do Cauê, certo de que iria rever pessoas que só vejo em dias de eleição. Não havia nem um santinho na calçada, mas encontrei quatro simpáticos candidatos a vereador fazendo boca de urna com total discrição. Dei meus dois votos sem grandes emoções e sem enfrentar qualquer fila. Em casa, acompanhei notícias sobre o final da votação e, com mais atenção, a verdade que ia saindo das urnas do país inteiro, com destaque para as das cidades maiores. Posso estar engando, mas fiquei com a impressão de que estamos entrando em uma nova fase da política brasileira. Faça chuva ou faça sol, mitos e populismo acabam de sofrer um baque determinante.

Vitória, 03 de outubro de 2016

Alvaro Abreu


Escrita para A GAZETA

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