13.9.16

Escrita criativa

A palavra menor
José Eduardo Agualusa (O GLOBO, 12/9/2016)
Reler Eça de Queirós continua sendo a melhor terapia para regenerar o espírito, quando nos achamos debilitados pela leitura dos jornais e por uma exposição exagerada às falas e discursos dos políticos. Foi assim que dei com um curioso texto, pouco conhecido, inserido numa edição, já com mais de um século, d’“As cartas inéditas de Fradique Mendes”. Neste texto, o extraordinário Fradique reflete sobre criação literária, defendendo a simplicidade e a clareza: “Flaubert catava dos seus livros todos os termos que não pudessem ser usados na conversa pelo seu criado: daí vem ele ter produzido uma prosa imortal. (...) O homem pensa em resumo e com simplicidade, nos termos mais banais e usuais. Termos complicados são já um esforço de literatura — e quanto menos literatura se puser numa obra de arte mais ela durará.”

Recordei-me de um comentário de Gonçalo M. Tavares, explicando o seu processo criativo: “Entre duas palavras escolho sempre a menor.”

Eis, numa breve frase, toda uma aula de escrita criativa. A propósito de aulas de escrita criativa, há muito me apercebi que o principal problema de grande parte dos jovens aspirantes a escritores — ao menos os que frequentam tais aulas —, está precisamente nesse “esforço de literatura” de que falava Eça. As coisas não mudaram muito nos últimos 150 anos. Em algumas das oficinas literárias que realizei, as primeiras aulas foram as mais difíceis, tentando convencer os alunos a esquecer a literatura para, simplesmente, escreverem.

Desconfio dos “textos difíceis”, e dos sujeitos de discurso empolado, pelos mesmos motivos pelos quais desconfio do bacalhau com natas: um bom bacalhau só necessita de um fio de azeite. Uma boa ideia deve poder ser defendida através de meia dúzia de palavras elementares. Se isso for impossível, talvez não seja uma boa ideia.

A semana passada um amigo levou-me de surpresa ao show de Caetano com Teresa Cristina, em Lisboa. Após cantar “Os passistas”, um samba que integra o álbum “Livro”, de 1997, Caetano explicou ter-se lembrado dele para o show após escutar as críticas aos discursos de Temer, e às suas famosas mesóclises. “Esse meu samba tem duas mesóclises”, lembrou. Tem mesmo: “Se desbotássemos, outros revelar-nos-íamos no Carnaval// (...) Amor,/ onde quer que estejamos juntos/ multiplicar-se-ão assuntos de mãos e pés/ e desvãos do ser.”

É um samba belíssimo, que desmente tudo o que escrevi atrás, ainda que, suspeito, não consiga resgatar a honra perdida das mesóclises. Ao mesmo tempo é a exceção que confirma a regra. Só um enorme cantor para não tropeçar naquele “revelar-nos-íamos”; e só um tremendo compositor para tornar harmoniosas, senão mesmo inevitáveis, qualquer uma das mesóclises. Na interpretação de Caetano a letra parece simples, tão simples quanto as acrobacias da ginasta americana Simone Biles ou o voo de um gavião. O caso é que para um vulgar humano as acrobacias de Simone Biles seriam ou um suicídio elegante ou um assombroso milagre.

“Um romance que não possa ser lido sem um dicionário é uma obra grotesca”, continua Eça, n’“As cartas inéditas de Fradique Mendes”, ou Fradique por ele, condenando primeiro os escritores de léxico raro e confuso e, logo a seguir, os de léxico excessivo: “O escritor de léxico abundante não pode dizer que ‘Elvira chorou’ sem complicar esse ato tão simples com tantas incidentais sobre o sabor das lágrimas, o fel ou o júbilo que elas continham etc., que o leitor, aturdido, escassamente fica sabendo se Elvira estava chorando, ou rezando as contas, ou cantando ao piano a ‘Traviata’.”

Entre os muitos projetos que nunca realizarei — porque me acho demasiado ocupado com outros —, gostaria de publicar um livro de escrita criativa, que não fosse outra coisa senão uma recolha de opiniões, sugestões e conselhos de grandes escritores. Teria de incluir nele o texto citado acima, num capítulo sobre a importância de conseguir fazer com que pareça simples o que na realidade é complicado. São muitos, aliás, os escritores que defenderam a simplicidade. Estou a lembrar-me do romancista francês Jean Cocteau: “Convém tratar com simplicidade as ideias complicadas e com sutileza as que parecem simples.”

Não raras vezes, tanto na literatura quanto na política, complicar é apenas uma estratégia para dissimular o vazio. Nesse livro que um dia não publicarei, teria também de citar Nietzsche: “Aquele que se sabe profundo esforça-se por ser claro; aquele que gostaria de parecer profundo à multidão esforça-se por ser obscuro.”

Texto enviado por José Luiz Fernandes


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