Crônica diária
Colheres de bambu
Encontrei de passagem por São Paulo uma velha amiga. Ela e seu marido,
há muitos anos, moram nos mares do mundo, navegando em barco próprio.
Graziella Debbane com seus dois olhos claros e azuis vê e comenta o
mundo de forma muito particular. Um papo interessantíssimo, sempre. Mal
tivemos tempo de colocar a saudade de lado, seu telefone toca e um casal
de amigos vem ao nosso encontro. Mera coincidência estarem a poucas
ruas de onde estávamos. Resume em duas palavras quem são: "Você vai
adora-los. O Alvaro é cronista e faz colheres de bambu, conhecidíssimo
na Alemanha. Carol, queridíssima, é arquiteta. Moram no Espírito Santo e
estão de passagem por São Paulo." Alguns minutos depois o casal chega. O
primeiro contato visual confirmou que a Graziella estava certa, mais
uma vez. O Alvaro Abreu, cabelo e barba brancos e longos, sorriso
franco, foi logo caindo nos meus braços como velho conhecido. Carol,
também bonita e simpática mais contida. Ela trazia além da bolsa uma
sacola com uma caixa de três livros do Rubem Braga. Colocou no centro da
mesa. "Olha que sorte", exclamou. "O vendedor disse que era o ultimo da
livraria". Foi aí que tomei a palavra para elogiar o escritor, de quem
sou fã de carteirinha. Falei da curiosa característica de nunca ter
escrito um romance ou contos, numa época em que a crônica era ainda
menos respeitada do que é hoje. E fui nessa linha, terminando por dizer:
"é o pai de nós todos". Disse isso porque há minutos antes a Graziella
havia me dito que o Alvaro também escrevia cronicas, além de esculpir
colheres de bambu. O casal me olhava espantado. O que não sabia era que o
Alvaro é sobrinho do Rubem Braga. E aí caímos todos numa longa risada.


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