24.9.16

Crônica diária

 Você já foi tratado como um deficiente cognitivo?

Ontem contei minha ida ao Poupa Tempo. Para poupar o vosso, fui sucinto e não descrevi que passei por uma experiência inédita.  Fui tratado como "um retardado" ou um "velho esclerosado". Quem leu a crônica de ontem sabe que tive que recolher as taxas pela segunda vez para obter a CNH no mesmo dia. O crédito do pagamento anterior serviria para uma futura e "eventual" segunda via, mas não para o mesmo documento. Vai entender. Mas não discuti. Depois de vinte e três dias de espera, a possibilidade de sair com a carta de motorista na mão, valia pagar tudo de novo. Com o recibo em mãos fui ao guichê da Secretaria da Receita Estadual providenciar  a devolução do crédito. Já me haviam informado que levaria no mínimo noventa dias. Melhor a devolução do que a "eventualidade" do uso. O raio não costuma cair duas vezes no mesmo lugar. Não haveria de precisar da segunda via no prazo de doze meses, quando o crédito expira.  A moça do guichê pegou o comprovante do pagamento e perguntou o que eu desejava. Respondi que a devolução do valor pago anteriormente. Ela teclou o computador, e de olho no monitor me perguntou: "O senhor é o Eduardo de tal?" Respondi que sim. Ela então me deu a notícia: "Não poderá ter o reembolso porque o senhor tem uma dívida de IPVA no sistema". Como assim? "Os IPVA´s dos anos de 2015 e 2016,de um Honda 125, de cor vermelha, ano 2007". Mas eu não tenho moto. Aí ela olhou com um sorrisinho meio de pena, meio de dó, e voltou calmamente a me perguntar: "Então o senhor vendeu?" Minha filha, deixa eu anotar esses dados, posso? pegando um pequeno papel branco de anotações sobre o balcão. Ela disse: "Claro" e me passou uma caneta. Anotei todos os dados e finalmente lembrei de perguntar de onde era essa moto? Ela procurou no monitor e respondeu: "Campinas". Ahh, então desconfio do que se trata. Deve ser a moto do vigia da Fazenda em Campinas. Ela só balançou a cabeça sem fazer nenhum gesto de estar modificando seu juízo a meu respeito, e disse: "quando o senhor pagar os IPVAs, preencha este formulário, junte todos os documentos aí listados, e volte para protocolarmos." Eu peguei o papel, o meu recibo, agradeci a atenção e saí convicto de que não tinha desfeito a má impressão. Acontece que eu e meus três irmãos temos em sociedade uma Fazenda em Campinas. Um sobrinho toma conta. Como havia muito roubo de gado, e assalto às sedes das fazendas na região, há nove anos  compraram a moto para o guarda noturno. Foi comprada em meu nome, pelo visto, e nunca declarei no meu IR. Liguei para o meu sobrinho e meia hora depois o contador me ligou pedindo desculpa pelo incômodo. A funcionária da fazenda, que deveria cuidar disso, estava de férias no vencimento. Ao voltar esqueceu do assunto. Como lá não chega correio, não tem aviso. A única forma de sanar futuros problemas é mudar a data das férias da funcionária, uma vez que ela é filha do gerente. O vencimento é junho e nesses dois anos ela esqueceu.

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