Crônica diária
Você já foi tratado como um deficiente cognitivo?
Ontem contei minha ida ao Poupa Tempo. Para poupar o vosso, fui sucinto e
não descrevi que passei por uma experiência inédita. Fui tratado como
"um retardado" ou um "velho esclerosado". Quem leu a crônica de ontem
sabe que tive que recolher as taxas pela segunda vez para obter a CNH no
mesmo dia. O crédito do pagamento anterior serviria para uma futura e
"eventual" segunda via, mas não para o mesmo documento. Vai entender.
Mas não discuti. Depois de vinte e três dias de espera, a possibilidade
de sair com a carta de motorista na mão, valia pagar tudo de novo. Com o
recibo em mãos fui ao guichê da Secretaria da Receita Estadual
providenciar a devolução do crédito. Já me haviam informado que levaria
no mínimo noventa dias. Melhor a devolução do que a "eventualidade" do
uso. O raio não costuma cair duas vezes no mesmo lugar. Não haveria de
precisar da segunda via no prazo de doze meses, quando o crédito
expira. A moça do guichê pegou o comprovante do pagamento e perguntou o
que eu desejava. Respondi que a devolução do valor pago anteriormente.
Ela teclou o computador, e de olho no monitor me perguntou: "O senhor é o
Eduardo de tal?" Respondi que sim. Ela então me deu a notícia: "Não
poderá ter o reembolso porque o senhor tem uma dívida de IPVA no
sistema". Como assim? "Os IPVA´s dos anos de 2015 e 2016,de um Honda 125, de
cor vermelha, ano 2007". Mas eu não tenho moto. Aí ela olhou com um
sorrisinho meio de pena, meio de dó, e voltou calmamente a me perguntar:
"Então o senhor vendeu?" Minha filha, deixa eu anotar esses dados,
posso? pegando um pequeno papel branco de anotações sobre o balcão. Ela
disse: "Claro" e me passou uma caneta. Anotei todos os dados e
finalmente lembrei de perguntar de onde era essa moto? Ela procurou no
monitor e respondeu: "Campinas". Ahh, então desconfio do que se trata.
Deve ser a moto do vigia da Fazenda em Campinas. Ela só balançou a
cabeça sem fazer nenhum gesto de estar modificando seu juízo a meu
respeito, e disse: "quando o senhor pagar os IPVAs, preencha este
formulário, junte todos os documentos aí listados, e volte para
protocolarmos." Eu peguei o papel, o meu recibo, agradeci a atenção e
saí convicto de que não tinha desfeito a má impressão. Acontece que eu e
meus três irmãos temos em sociedade uma Fazenda em Campinas. Um
sobrinho toma conta. Como havia muito roubo de gado, e assalto às sedes
das fazendas na região, há nove anos compraram a moto para o guarda
noturno. Foi comprada em meu nome, pelo visto, e nunca declarei no meu
IR. Liguei para o meu sobrinho e meia hora depois o contador me ligou
pedindo desculpa pelo incômodo. A funcionária da fazenda, que deveria
cuidar disso, estava de férias no vencimento. Ao voltar esqueceu do
assunto. Como lá não chega correio, não tem aviso. A única forma de
sanar futuros problemas é mudar a data das férias da funcionária, uma
vez que ela é filha do gerente. O vencimento é junho e nesses dois anos
ela esqueceu.


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