12.9.16

Colégio de Cataguases, 1959

ALUNOS DA 4ª SÉRIE GINASIAL DO COLÉGIO DE CATAGUASES – 1959

42 ALUNOS  (escritos em preto os nomes dos internos)


-         ACRISIO FÚLVIO MIRANDA DORRÊA JÚNIOR
-         AÉCIO FLÁVIO GUIMARÃES
-         AIMAR DE OLIVEIRA CAETANO
-         ALAIDE ROSA DE BARROS RAMOS
-         ALFREDO NAPOLEÃO MOURA BEZERRA
-         ALUISIO FARIA DE SIQUEIRA
-         AQUILES BRANCO RIBEIRO
-         CARLOS AUGUSTO LOPES
-         CÉLIA SIQUEIRA JUNQUEIRA
-         CÉSAR CALAZANS DE ALENCAR MATTOS
-         CLÁUDIO QUEIROZ PEREIRA
-         EDISON RESENDE FILHO
-         EVANDRO RAMOS LOURENÇO
-         EDUARDO ABEL DE LEMOS JUNQUEIRA
-         FRANCISCO BUARQUE DE HOLLANDA 
-         FRANCISCO DAS CHAGAS BASTOS CORREIA
-         GERALDO AMIN SAMOR FILHO
-         GUSTAVO  ADOLFO LADEIRA PESSOA
-         HAROLD ROHR MURRAY
-         JEFFERSON SIQUEIRA
-         JONES HESKETH NETO
     -      JOAO BAPTISTA DA COSTA NETTO (“Bambolê”)
 -         JOSÉ CARLOS TEIXEIRA CARDOSO
-         JOSÉ EDUARDO VALVERDE 
-         JOSÉ LUIZ DA CUNHA  FERNANDES
-         JOSÉ LUIZ SOBRAL
-         LUIZ AUGUSTO PORTILHO MAGALHÃES
-         LUIZ AURELIANO GAMA DE ANDRADE
-         LUIS ROBERTO SORENSEN
-         LUIZ TITO WALKER DE MEDEIROS
-         MÁRCIO DA CUNHA MELO
-         MARCOS TULIO BARRETO ROCHA BRAGA
-         MÁRIO MAGALHÃES DE SOUSA
-         MANUEL DAS NEVES PEIXOTO FILHO
-         MURILO PEREIRA DE SOUSA
-         PAULO BASTOS MARTINS
-         PAULO DE CARVALHO DEOTTI
-         PAULO ELIAS CHUQUER
-         RONALDO PINHO FERREIRA DE ABREU
-         VIRGILIO PESSOA TORRES
-         VICTOR CURVELO NETO
-         WELLINGTON DE AQUINO SARMENTO
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Palavras do Dr. Manuel das Neves Peixoto aos quartanistas de 1959 (antigo Curso Ginasial do Colégio de Cataguases) - publicadas no jornal O ESTUDANTE, 1959.



Foi com grande surpresa que soube da escolha para paraninfá-los na solenidade de hoje. Surpresa porque em nossas aulas tive a oportunidade de verificar que havia um certo desinteresse da turma pela solenidade de formatura. Parecia que um acanhamento coletivo havia descido na quarta série, impedindo seus componentes de se agitarem, como já é comum, a partir dos idos de setembro ou de outubro de cada ano.

Depois de estar praticamente assentado que nada haveria, o convite teve algo de inesperado. De certo modo é no inesperado que apanhamos as emoções mais fortes. Boas ou más. A que vocês me proporcionaram me foi muito agradável, muito embora sentisse, no primeiro impacto, não o prazer imediato, a alegria de congregá-los e sim a existência de mais tarefas, mais esforços sobrecarregando ainda mais minha dupla atividade de professor às voltas com correção de provas escritas e orais, e de bacharel às voltas com audiências.

Não senti o prazer, perdoem a confissão que lhes faço. É bem possível que a carapaça de egoísmo que a vida nos coloca todos os dias, de modo quase imperceptível, mas ininterrupto, não me tenha proporcionado outra reação inicial, além dessa que lhes relato agora.

Mas quando comecei a conversar com vocês no papel, quando minha pena ia, ora tortuosa e rude, ora mais lépida correndo, o homem mau foi-se afastando de mim e o homem bom, que subsiste em grande parte dos homens, apesar de tudo, foi me levando a vocês, não mais de modo protocolar ou discursador, não mais como quem faz uma visita desagradável, porém inevitável.

Senti que se aproximava de vocês o velho professor, o companheiro que sofria angústias em não encontrá-los na sala certa, por custar, com algumas risadas de vocês, a perceber que agora os professores têm salas, os alunos, não. Ou melhor, um certo número de professores.

À medida que ia ficando sozinho, no escritório, despedindo apressado os que procuravam o enfático bacharel, a solidão criava o paradoxo da grata presença de todos vocês que começaram a caminhar no vidro do meu birô, caminhavam de verdade, pois minha pena estacava e meus olhos ficavam grudados num ponto qualquer para vê-los melhor e amá-los mais ainda.

Agora, parei mesmo de escrever. Não posso mais. Meu birô está cheio de vocês. Encosto o queixo na mão esquerda, a mão direita segura a pena que não corre mais no papel e é quase certo que vocês todos viram que fiquei com os olhos cheios de lágrimas, fiquei além de todos os problemas cotidianos de ganhar, de perder, de cavar isso ou aquilo.

Fiquei entregue a vocês que subiam nas minhas mãos, pelos meus braços, davam tapas no meu rosto, me davam outra vida, outra fonte.

Tenho medo de fazer qualquer movimento só para que vocês não se afastem, não corram para a outra vida que vocês têm, e me deixem sozinho, sem vocês, pois só vivo para vocês, com franqueza, enquanto vocês vivem para o mundo. Vou pensando...

Por coincidência muito grande eu tinha acabado de descer a colina do Colégio com os meus tarecos, e quase no mesmo instante vocês subiam a colina para as grandes emoções dos exames de admissão e dos primeiros instantes ginasiais. Se não tive a alegria de ser o diretor de vocês, em compensação meu contato foi maior pelas nossas aulas de História nestes quatro anos da quadra ginasial. Fiquei mais íntimo, participei, todas as semanas, até hoje, da marcha, das preocupações e do relativo amadurecimento da turma.

Vi o Luís Aureliano crescer violentamente, as espinhas tomando conta de seu rosto, a voz mudando, a gilete procurando a barba inexistente, e a criança mantendo-se incólume nesta verdadeira montanha russa que é o despertar da adolescência.

Vi Aécio Flávio crescendo discretamente, um pouquinho só, sem se perceber no perigoso vazio que costuma ser o período dos 15 anos. Vi Evandro  enfrentar o elogiável esforço dos que desejavam deslocá-lo da liderança da turma. Da primeira série à quarta, o mesmo esforço do garoto da Minalda, a mesma obstinação em permanecer onde está, o mesmo espírito.

Vi os tiques do Manuel Filho, o meu rapaz, sua testa franzida, seu temperamento agitado, suas decepções às vezes. Vi Aquiles, vi Edson, via a Célia pedindo prazo para terminar a prova, escrevendo sem ordem nas entrelinhas, riscando, riscando, riscando - espere um pouco, Dr. Manuel, um pouquinho só.

Vi mais do que isso, meus jovens. Vi que vocês continuam os mesmos, não descambaram. Estão atravessando o terreno perigoso, minado, e não perderam as purezas do amanhecer.

Com infinito cuidado para não afastá-los de mim, encosto a testa nos meus braços que estão agora saídos do birô, e vejo-os melhor ainda, vejo-os por fora e por dentro, analiso-os com muito mais precisão, com uma segurança que só o exame envolto pela solidão proporciona.

Só encontro motivos para acreditar em vocês. Seus gestos, seus atos e até mesmo seus pensamentos são claros e não podem prenunciar ocorrências outras senão aquelas de que vocês caminharão sempre pela vida com passos largos, firmes, seguros, os passos próprios dos capazes.

Eu lhes disse prenúncios, prestem atenção, eu lhes falei em vidas manipuladas até agora. Tudo pode desaparecer, os caminhos tornarem-se tortuosos, a claridade que emana de vocês ser substituída por tonalidades de maus augúrios, e vocês se anularem e nos proporcionarem, a nós, seus pais, professores e amigos, um doloroso malogro das nossas justificáveis esperanças. Vocês precisam pensar seriamente que não asseguraram coisa alguma na vida. Vocês nos trazem muitas esperanças, por isso mesmo confiamos em vocês, mas há um caminho enorme pela frente até que vocês amadureçam, e o amadurecimento pode verificar-se na terra boa ou na terra daninha. Todas as melhores premissas, que são inegavelmente vocês, poderão desaparecer graças a poderosas influências e vocês se anularem em definitivo.

É preciso que vocês se mantenham honestos como até agora. Esta tarefa não será difícil porque, além das qualidades acumuladas em vocês e já cimentadas, há ainda a esperança de que este envoltório de paz, de pureza, de adolescência bem iniciada, possa preservá-los das inúmeras influências malsãs.

A manutenção da pureza é uma etapa importantíssima. Atingida esta área, vocês estarão numa posição já singular no mundo corrompido em que vivemos, não somente o nosso mundo, mas o mundo em todos os seus períodos, por força mesmo da humanidade em si. Agora é procurar a completa independência, o olhar alto, que é a conquista da segunda área, o valor pessoal nas profissões a que nossas tendências inatas nos levarem. É comum o chavão de que os inteligentes não precisam esforçar-se em demasia, pois todas as flutuações do conhecimento específico serão compensadas pela acuidade desse ou daquele que tem rapidez de raciocínio.

Baseado nesse raciocínio falho é comum encontrarmos criaturas que poderiam definir-se como excelentes profissionais e que, em função do caminho errado, tornaram-se criaturas dependentes, porque inseguras nas profissões que abraçaram. A insegurança advém do despreparo, da falta de estudo.

Quero ser objetivo. Vocês não podem matricular-se nas escolas tão-somente. É fundamental que estudem todos  os dias, que tenham a preocupação de um bom curso de humanidades. Se o aluno conquistar com firmeza o primeiro ciclo secundário, o curso colegial será fácil. O perigo está na quebra do elã, da vontade de estudar.

Aos primeiros cigarros, vêm as primeiras namoradas, os primeiros bailes, as primeiras deformações provocadas pelo mundo. Dançar é melhor do que estudar. Além disso, o rapaz estudioso é tido e havido como sujeito antiquado, fora do compasso atual. Os copos de álcool começam a funcionar. O rapaz simples vai sofrendo uma transformação crescente. O chiclete dança já o rock na sua boca. Se tem lambreta, vai lambretar, se não tem, se mora no interior, começa a levar a vida besta - que ele acha formidável, de encher os bilhares, fazer os joguinhos a dinheiro e "otras cositas mas".

O rapaz está em franco período de desagregação. Há pouco tempo para o estudo, que já não tem mais aquele fascínio de antigamente. É um estudo forçado, de quem está com grilhetas, de quem está realizando uma tarefa enfadonha. Urge que esta tarefa seja a mais rápida possível. O negócio agora é estudar para passar, se for possível. Se não for possível, a reprovação não tem mais aquele aspecto lúgubre de outrora. Surgem os "slogans" que resolvem momentâneos aborrecimentos: "a reprovação é própria do aluno" ou "bomba não foi feita para cachorro", etc..

Talvez por falta de bons filtros em seus sentimentos afetivos, muitos pais tornam-se coniventes com os insucessos de seus filhos, não sabem usar de sua autoridade nos momentos necessários, acham mesmo que a palavra enérgica e precisa machuca o jovem, afasta-o de si. Outros, já consumidas suas energias em suas atividades cotidianas, chegam em casa exaustos e olham os problemas de seus filhos pela rama, por alto, com o olhar cansado, com o corpo mole de quem não quer lutar, de quem quer afundar o corpo esbodegado na poltrona, pegar o seu jornal e deixar correr o marfim.

Os jovens mais e mais avançam em sua transformação, tornam-se donos da situação,gastam mais, não têm  mais o respeito que devotavam a seus pais, interpelam-nos com freqüência e se afastam cada vez mais da vida simples, alicerçada com as melhores bases dos lares que mantiveram sua autoridade.

Depois de vencida a montanha russa de tantos acontecimentos, os velhos pais se aproximam e perguntam: que é daquele rapaz tão estudioso? O gato comeu ...

Espero ardentemente que o gato não coma vocês. Como ficarei alegre de encontrá-los, mais tarde, donos das mesmas qualidades que fizeram desta 4a. Série uma das  mais eficientes do Colégio, em todos os tempos!

Para conservar tais qualidades, não lhes peço que abdiquem os prazeres inerentes aos moços, não lhes peço uma vida anti-natural de privações, de cilícios, para a aquisição da bem-aventurança.

Quero, ao contrário, que vocês sintam alegria em realizar os atos normais da vida. Alegria de dançar, de viajar, alegria de ler um bom livro, alegria de estudar, de enfrentar os acontecimentos,  de superar obstáculos, alegria de ser sincero, bom ...

Não lhes estou falando em tristezas, não lhes sugiro nada além da pura alegria de viver. Fiquem certos de  que não tem alegria de viver quem se preocupa em enganar o próximo, quem se preocupa em ferir, em magoar ...

Os jovens que desnaturaram os melhores propósitos sofrem e fazem seus pais sofrerem. Manuseiem jornais e revistas e vocês encontrarão rapazes que têm marcas dos tristes, dos que sofrem, porque julgaram que a alegria estava na libertação desbragada dos instintos.

Quero vê-los alegres, puros, caminhando com segurança e alcançando a competência profissional. Ela é o resultado da pesquisa, da preocupação constante de estudar. A competência, meus jovens, vem devagar, vem lenta, é um tesouro que não se desenterra com os braços musculosos dos piratas da perna de pau. É como  um filete aurífero que vem serpenteando quase imperceptível pelos cilindros cheios de areia, acumulando, sem pressa, o fulvo metal.

Não é difícil o caminho que os leva ao mérito. Ele é até muito simples. Consiste no trabalho lento de acumular as essências dos dias bem vividos. O difícil é preservar a simplicidade, mantê-la intacta, caminhar querendo bem à noite, às estrelas, mas sem fazer das noitadas a razão de ser da vida. Dentro em breve muitos caminhos excitantes aparecerão a vocês, e vocês naturalmente irão percorrê-los, e fazem muito bem. O que não está certo é viver assim, buscando somente o sexo, os vórtices, as dissipações. Essas coisas todas trazem, com o tempo, um vazio enorme, um tédio, um desengano, e, mais do que isso, uma frivolidade que dói!

Vocês até agora estão preparados para conquistar amplas áreas. Têm um razoável curso ginasial, muitos estão sendo plasmados neste Colégio, desde os exames de admissão.

Todos são simples e bons. Sobem sorridentes a colina da Granjaria, passam rápidos defronte a casa do Diretor. Paulinho está rindo das conversas entre dentes, em classe, de Jéferson e de Aimar, relatadas pelo irônico José Luiz, que está cortando uma volta com seu cabelo em pé, rebelde, cabelo que não está aceitando bem a linha moderna de cabelos não mais partidos. José Luiz me faz lembrar também os barquinhos de papel atravessando impávidos o Canal da Mancha...

Lembro que o professor de História chegava em classe e lhes desejava um bom dia. O professor deseja sempre bons dias a vocês, mas espera que vocês saibam conquistá-los.

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 Texto enviado por José Luiz Fernandes

Nota:   - foi precisamente dessa turma que participou Chico Buarque (1959), sem entretanto tomar parte na formatura, transferido que foi de volta para São Paulo;

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