5.7.16

Crônica diária

Marcelo Antinori

A primeira vez que ouvi (li) seu nome foi na matéria da Folha. Me chamou atenção um executivo de carreira virar escritor profissional tardiamente. E com ficção. Procurei comprar aleatoriamente três livros seus. Na Estante Virtual (Sebo digital) escolhi pelos títulos. Dois deles me foram entregues como previsto, e o "Sereia de Vidro", a venda foi abortada por falta do livro, e o valor pago devolvido. Sobre "O Húngaro que partiu sem avisar" que veio com o carimbo de "venda proibida" já escrevi uma linhas dias atrás. Iniciei a leitura pelo pequeno livro de bolspo (92 páginas) " Mistério na festa da padroeira". Iniciei na terça a noite e acabei a leitura na quarta pela manhã no aeroporto de Florianópolis aguardando o meu voo para São Paulo. O aeroporto amanheceu fechado para pouso e decolagem. E assim permaneceu até as quatorze horas. Meu voo foi marcado e cancelado três vezes. Foram ao todo sete horas de espera. As salas de embarque abarrotadas de passageiros de todas as companhias. Não havia lugar vago para sentar, e as pessoas se esparramavam pelo chão Foi nessa situação que li o livro do Marcelo, e cometi esta crônica. Ele escreve de maneira simples e correta. Nada de artifícios intelectuais. Isso é bom. O assunto, pelo menos desse livrinho, é a vida de um escritor, narrador dos fatos, que vivi na cidade de São Paulo, e convive com bandidos do Comando, chefes do tráfico, amante traficante, casado com mulher competente e amante de um francês, que ele manda matar, muitos travestis, fora e dentro das penitenciárias. O curioso é que ao acabar de ler, e tentando imaginar o que escreveria a respeito, ouço uma voz alta, de um senhor de terno preto e gravata, acredito que o único passageiro nesses trajes, gesticulando e fazendo uma pregação evangélica do tipo: "só Jesus salvará". Cita, em alto e bom som, o massacre do aeroporto de Istambul, do dia anterior, "Glória a Deus", e continua sua arenga sem ninguém dar atenção. Falou do mundo de pecado que essas moças que andam de mãos dadas, e desses rapazes que fazem o mesmo, deixando-nos sem saber quem é homem, quem é mulher. "Só Jesus nos salvará." E continuou na mesma toada acusando essa onda de politicamente correto de coisa do diabo. "O mundo esta perdido. Mas com fé em Jesus, nós não morreremos. Glória a Deus". Pegou sua sacola de mão, um banner enrolado, e foi em busca de um lugar para sentar. Eu havia acabado de sair do mundo real descrito pela ficção do Marcelo e ouço aquela pregação constrangedora e piegas que me dá certeza de que não só a saída da Inglaterra da UE vai mudar o mundo. Se vai ser para melhor, ou pior, só consultando a Madre Cristina que tira cartas do tarô, também presente na história do Marcelo.


Marcelo Antinori, escritor brasileiro que vive em Washington, é economista e trabalhou por vinte anos no Banco Interamericano de Desenvolvimento e no Banco Mundial com projetos implementados em vinte e seis países da América Latina e do Caribe. Foi presidente da Vasp. A partir de 2012 passou a  dedicar integralmente seu tempo a escrever. Tem romances publicados em português, inglês e espanhol.




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