2.7.16

Crônica diária



 A fascinante história da A Origem do Mundo
 
Como amante das artes, especialmente de pintura e escultura, conheci a obra mais polêmica do genial Gustave Coubert, pintor realista francês através da internet (2011, provavelmente). Postei em meus blogs, uma foto da obra, que se resume numa xoxota em primeiro plano. Causou algum desconforto entre meus (muitos) seguidores à época. Foi mais tarde que tomei conhecimento da incrível história desse pequeno quadro 46 x 55 cm. Tudo começou com Khalil Bey, diplomata otomano milionário lotado em Paris, onde havia escolhido servir para se tratar de uma sífilis, que encomendou ao pintor Coubert um nu especialíssimo. O turco libidinoso era colecionador de desenhos pornográficos, mulheres nuas, cavalos de corrida e amantes. A tela encomendada foi decorar o banheiro de sua mansão. Nesse primeiro ambiente foi coberta por uma cortina verde, cor do islã, sua fé religiosa. A icônica boceta era vista só pelos frequentadores do tal banheiro, e que por curiosidade corriam o cortinado. A história correu de boca em boca e o banho passou a ser muito visitado. Várias foram as hipóteses, ao longo do tempo, sobre quem teria posado para Coubert. Entre as especuladas estava a própria amante do Khalil Bey, a francesa Jeanne de Tourbay. Mas havia que apostasse ter sido a ruiva irlandesa Joanna Hiffernan, amante do próprio Coubert, além de outros pintores como do inglês Whistler. Sobre o assunto o cronista brasileiro Reinaldo Moraes errou redondamente apostando na primeira hipótese, alegando que os pelos pubianos em geral são da mesma cor dos cabelos, e que a ruiva Hiffernan sempre foi retratada com farta cabeleira vermelha, e os pentelhos da obra eram fartos, mas castanho-escuro. Recentemente descobriu-se o que especialistas acreditam ser a parte superior da tela onde aparece o rosto inconfundível da miss Hiffernan, sem saberem a razão de tal fragmentação, e da diferença da cor dos pelos pubianos. Superada essa pendenga vamos aos fatos. Khalil Bey acabou falindo por conta do jogo e teve seus bens vendidos em leilão. A Origem foi parar nas mãos de um marchand parisiense (circa 1889) que por pudicícia ou  temor de um escândalo o ocultou atrás de outra tela do mesmo Coubert representando uma inocente igrejinha num campo nevado. Especula-se, mais uma vez, que há uma relação entre a inocente igrejinha representando a religião, que sufoca, abafa e oculta a buceta entre as coxas escancaradas. Mas volta-se a ter notícia da "perereca", que andou por locais ignorados, quando é localizada em Budapeste, no castelo do barão Havatny em 1913. O nobre húngaro continuava a oculta-la atrás da igrejinha. Em 1940, a resguardada bocetinha, se vê ameaçada pelas tropas nazistas que invadem a Hungria e Havatny deixou subtamente o castelo, não sem antes guardar seus tesouros num cofre-forte de um banco. Isso não impediu que os alemães não rapinassem os tesouros, mas não deram valor à igrejinha, ignorando a xoxota oculta. Quem a descobriu foi um oficial do exercito vermelho que, por sua vez, invadiu a Hungria poucos anos depois. Lá vai a Origem para Moscou comunista. Finda a guerra o rico barão Havatny  teve a sorte de localizar sua prenda na Rússia e sob suborno leva-la para Paris, em mala diplomática. Morto o barão a "periquita" encontrou abrigo na galeria de outro marchand até que em 1955 foi arrematada pelo psicanalista parisiense Jacques Lacan que a levou para sua casa de campo em Guitrancourt. Na psicanálise o falo é que é considerado vilão. O próprio Lacan chegou a escrever que "a mulher não existe" pois carece do cetro ontológico, o pênis. Apesar disso Lacan costumava levar seus amigos, entre eles Picasso, sem trocadilho, ritualisticamente visitarem a obra na "campagne". Por exigência de Sylvia, sua esposa, foi mais uma vez obrigado a ocultar o belo ventre, agora com uma obra de André  Masson, cunhado dela. Finalmente em 1995, com o casal morto, e a título de pagamento de impostos sobre herança a Origem é dada ao Estado que com sua típica liberalidade francesa decide pendurar a honorável xavasca, sem disfarces, no então recém inaugurado Museu d´Orsay às margens do rio Sena.
Apesar de estar publicamente exposta num Museu, o pudico Face Book continua a censura-la. Para quem nunca viu, ou para os que queiram ver novamente, indico o Google, onde basta digitar "A origem do mundo" e encontrarão farta variedade de fotos, até que o Google as censure.

5 comentários:

Li Ferreira Nhan disse...

Que história! Além da crónica tb poderia ser roteiro de um filme.

Li Ferreira Nhan disse...

A moça abaixo esta vestida de moldura.

José Luiz disse...

Bela crônica e bela aula.

Jorge Pinheiro disse...

"Xoxotas e ladrões"

Silvares disse...

Um dia entrei na sala do Museu d'Orsay onde está esta pintura e deparei com duas crianças olhando fixamente a coisa. Dois rapazes, o mais velho teria 10 anos, estava firme, pernas afastadas, o mais novo, aí pelos 6 anos, perninha cruzada, cabecinha encostada ao braço do outro (irmão?) parecia vogar pelo céu, suspenso numa nuvem. Fiquei alguns momentos a admirar a cena, comovente cena, diga-se. Até que os rapazes desfizeram a pose e, tranquilamente viraram costas à parede e regressaram às suas alegres existências. Raras vezes assisti a tão profundo momento de contemplação.

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