14.7.16

Crônica diária




Ovo de madeira e meia sola de sapato

Com setenta e dois anos, caminhando célere para os setenta e três, ainda tenho dificuldade de tirar do pé a meia furada e jogar o par no lixo. Ontem fiz isso. Tenho enorme dificuldade em me desfazer das coisas. Um apego que veio da educação. Na casa da minha avó materna, minha madrinha vovó Nina, havia uma caixa de costura, como era chamada, que além de carretéis de madeira com linhas de todas as cores, muitas agulhas, tinha um ovo de madeira. Um ovo de madeira maciça e  carretéis que me encantavam. Eles foram imortalizados na obra de Iberê Camargo. Ovo de madeira  nunca mais vi. Servia para cerzir meias e roupas furadas. Minha mãe chegou a copiar o exemplo da vovó, mas os tempos mudaram. Ninguém mais coloca meia sola nos sapatos. Essa prática é da mesma época. É verdade que os sapatos da casa Toddy (que existe até hoje, no mesmo lugar, na Rua Augusta) eram para batalha, mas os nossos jogos de futebol no recreio do Dante, era um teste que superava qualquer sapato de sola resistente. No piso de pedra portuguesa, absolutamente irregular, a bola era tampinha de refrigerante, imaginem o resultado. Mas havia um sapateiro em cada bairro, e trocavam a meia sola. Nem esses sapateiros, nem o ovo de madeira maciça, são fáceis de encontrar. Hoje o calçado é de lona e borracha, e descartável. A camisa social leia-se: para gravata, antigamente eram feitas sob medida, e vinham acompanhadas de monograma e dois colarinhos extras. Hoje a troca de um colarinho custaria mais do que camisas prontas, confeccionadas na China, com marca italiana, e vendidas na esquina. Mas eu sempre fui apegado às minhas coisas. Quando era jovem conheci um camarada, que além de rico, era desapegado. Voava de primeira classe, para a Europa, umas  seis a sete vezes por ano, e trocava de camisa para desembarcar em Orly, deixando a camisa usada no lixo do banheiro do avião. Eu me escandalizava. Aliás, continuo me escandalizando. Mas cerzir meia não dá mais.

5 comentários:

Li Ferreira Nhan disse...

Ainda cirzo as minhas meias. E faço uso do ovo de madeira, herança da minha avó portuguesa. Só as minhas; do marido e filhas vão para o lixo.
Não consegui passar adiante esse hábito.

João Menéres disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
João Menéres disse...


Um dia destes, Eduardo, postarei um OVO desses em homenagem aos tempos felizes da nossa juventude.
Uma pergunta : Tem notícias desse seu camarada ?


Eduardo P.L. disse...

João, ele continua cada dia mais rico, mais esnobe, e deve continuar voando para a Europa como sempre fez, de camisa nova e limpa...

João Menéres disse...

Que pena eu não ter uma fábrica de camisas, Eduardo !

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