6.4.16

O Ministro que virou peixe

O ministro que virou peixe

 Azulejos pintados por Portinari com peixes com a mesma fisionomia do então ministro da Educação, Gustavo Capanema. (Foto: Divulgação)

Ícone da arquitetura modernista, o Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio de Janeiro, passou décadas abandonado. O descaso com o patrimônio público chegou a tal nível que a vida dos funcionários públicos que ali trabalham e da população que caminha por suas calçadas começou a correr risco. Elevadores estavam, literalmente, caindo aos pedaços – houve casos em que despencaram com passageiros e por pura sorte não houve um acidente mais sério, com vítimas. Azulejos da fachada despencavam na cabeça de quem passava pela calçada. Pinturas e murais em seu interior estavam descascando. Em 2015, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) começou o restauro do prédio, tombado pelo patrimônio histórico, a um custo estimado de R$ 60 milhões. Além de recuperar a estrutura física do edifício, o projeto vai restaurar os painéis de Cândido Portinari e as esculturas de Celso Antônio, Bruno Giorgi e Victor Brecheret que fazem parte do conjunto. Com tanto trabalho a fazer, os técnicos que coordenam o projeto têm um dilema a resolver: o que fazer com um painel de Portinari, depositado no almoxarifado do prédio, que o então ministro da Educação, Gustavo Capanema, mandou encaixotar em 1942.
Gustavo Capanema: ministro não gostou da semelhança de seu perfil com peixes de Portinari e mandou retirar os azulejos (Foto: Folhapress)
A história dessa obra inédita expõe uma fratura na relação entre Portinari e Capanema. O painel tem desenhos de peixes estilizados que, conforme se percebeu na época, imitam o rosto do ministro de perfil. Portinari recriou nas figuras marinhas a testa proeminente e a boca rasgada de Capanema. Quando o painel já estava sendo instalado, surgiram notas maldosas na imprensa falando da  “homenagem”. Capanema mandou retirar os azulejos da parede e substituir o desenho por outro em forma de estrelas-do-mar. Não ficou esclarecido se Portinari teve a intenção de fazer uma caricatura do ministro ou se a semelhança foi fortuita. Mas a obra acabou guardada e só foi redescoberta durante uma pesquisa em 1984. Desde então, o Iphan estuda o que fazer com ela.

Gustavo Capanema quis construir uma sede para o Ministério da Educação que fosse uma marca pessoal de sua gestão, que durou de 1934 a 1945 – a mais longa entre todos os ministros da Educação que o país já teve. Por isso, interferiu em cada detalhe da obra, a começar pelo projeto arquitetônico. Capanema descartou a planta escolhida em concurso público e convidou Lúcio Costa e Oscar Niemeyer para fazer novo desenho, a partir das linhas modernas do francês Le Corbusier. Chamou Portinari para pintar os maiores murais já feitos no Brasil. A iniciativa o comparava ao ministro mexicano José de Vasconcellos, que duas décadas antes convidara o pintor Diego Rivera para conceber os murais no prédio da Secretaria de Educação, na Cidade do México. O edifício de Capanema virou exemplo da pujança da nova arquitetura brasileira.
Portinari também estava no auge, e as relações com Capanema eram amistosas. Mas começaram a se desgastar por causa da excessiva intervenção de Capanema. A documentação do período mostra quanto ele impunha seu gosto pessoal em cada detalhe. Ao encomendar a pintura da sala de espera do gabinete, escreveu a Portinari: “No grande painel, deverão figurar o gaúcho, o sertanejo e o jangadeiro. Você deve ler o terceiro capítulo da segunda parte de Os sertões, de Euclides da Cunha. Aí estão traçados da maneira mais viva os tipos do gaúcho e do sertanejo”. Para o gabinete, pediu uma cena bíblica do julgamento do rei Salomão e orientou o pintor: “Leia no terceiro Livro dos Reis, capítulo III, versículos 16-28”.
Já na metade da encomenda, em dezembro de 1943, Portinari desabafou em carta a Mário de Andrade:  “Estou ansioso para acabar os trabalhos que faltam no Ministério – foi um trabalho que não me satisfez em nenhum sentido. Mesmo que tivesse feito grátis, mas realizado sem tanta intervenção, teria valido a pena”. Além das pinturas e dos murais internos, os enormes painéis de azulejo que recobrem a parte externa do prédio também foram confiados a Portinari. Le Corbusier defendia esse tipo de revestimento na fachada, em vez do mármore importado, porque isso valorizava materiais locais e remetia aos azulejos das igrejas coloniais do Rio de Janeiro, arquitetura cara aos modernistas. Capanema concordou que os painéis deveriam ser ornamentados com motivos marinhos, como estrelas-do-mar, conchas, peixes e moluscos, pelo fato de o edifício encontrar-se na época de frente para o mar. A área depois foi aterrada.
Para a confecção desses painéis, Portinari fazia desenhos em cartões, que eram aprovados por Capanema e depois enviados a São Paulo, onde o artista Paulo Rossi Osir produzia os azulejos. Os desenhos deveriam ser estampados nas cores azul e branca como os azulejos da igreja do Outeiro da Glória. O trabalho era tão minucioso que Paulo Osir passou meses fazendo experiências para chegar ao mesmo tom de azul dos painéis da igreja. Usou um óxido de cobalto que no século XVIII os portugueses importavam de Angola.
O desenho dos peixes foi inicialmente aprovado por Capanema, sem que o ministro percebesse semelhanças com sua fisionomia. O painel ficou pronto e estava sendo instalado, quando ele mandou arrancar as peças que já estavam na parede. Alegava que, em tamanho grande, seu resultado estético não foi “satisfatório”. Num edifício tão personalista como o que o ministro estava construindo, uma parede coberta por figuras que se pareciam com ele soaria anedótico. Capanema, político experiente, evitou a tragédia.
Paulo Rossi Osir, fabricante dos azulejos, escreveu a Portinari: “Lastimo o incidente peixe cara de gente”.  A imprensa, sob censura do Estado Novo, não noticiou o acontecido. Foram substituídas por estrelas-do-mar todas as figuras de peixe que ornamentavam a parte interna do painel. O governo teve de pagar a fábrica de São Paulo que trabalhou dobrado produzindo novos azulejos com o desenho refeito por Portinari. O caso acabou esquecido.
Cândido Portinari. (Foto: Getty Images)Cândido Portinari em seu estúdio: qualquer semelhança do ministro Capanema com os peixes do painel é mera coincidência? (Foto: Life Picture Collection/Getty Images)
Em 1984, técnicos do Iphan fizeram um inventário nos depósitos do edifício e encontraram azulejos que não pertenciam a nenhum painel instalado. Eram 1.600 peças com desenhos de peixes. Alguns deles tinham vestígios de massa, indicando que já haviam sido assentados. Pesquisando a origem do material, eles encontraram documentação sobre o incidente. Os técnicos remontaram o painel – que deveria ter 72 metros quadrados – no pátio do ministério. Verificou-se que era uma obra inédita, com alguns azulejos quebrados e outros faltando. Em seguida ele foi desmontado e as peças guardadas em 29 caixas no depósito.

Para o lugar do painel com peixes, Portinari criou outro, com desenhos de estrelas-do-mar, cavalos marinhos e conchas(Foto: Pulsar Imagens)
“Tão logo as obras de restauro do prédio estejam concluídas, nossos técnicos verificarão a possibilidade de montagem do painel”, diz Luiz Phillippe Torelly, diretor do Departamento de Articulação e Fomento do Iphan. O dilema é como remontá-lo. No relatório do Iphan de 1984, havia duas sugestões. A primeira seria mandar fabricar os azulejos que estão faltando e montar a obra conforme seu desenho original, em alguma parede interna do prédio. Isso implicaria um custo elevado e dificuldade técnica para replicar com exatidão os azulejos que se perderam. A segunda seria usar apenas os azulejos preservados. Assim, se faria uma remontagem artística com desenho aleatório, sem respeitar os traços de Portinari. Nesse caso Capanema terá cumprido seu intento de não ver a própria caricatura estampada no prédio que mandou construir.

Um comentário:

Jorge Pinheiro disse...

Muito interessante toda a história. Só não percebi se o Corbusier esteve directamente envolvido no projecto.

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