18.1.16

Crônica diária


Uma alucinação

Nos últimos cento e dez anos São Paulo e o Brasil mudaram muito. Conta Roberto Pompeu de Toledo, no seu livro " A Capital da Vertigem" que o "Correio Paulistano", órgão oficial do todo poderoso Partido Republicano Paulista, na sua edição de 21 de Janeiro de 1906 faz um relato da principal notícia do dia. O Senador estadual Francisco de Assis Peixoto Gomide, vice de Campos Sales no governo estadual, e presidente por um ano (1897 e 1898) amanheceu depois de uma noite maldormida , almoçou como era de costume na cidade, às dez horas, com sua mulher e seus quatro filhos, e continuou na sala de jantar acompanhado de sua filha Sofia de 22 anos. Ele continuou silencioso na mesa, jogando para o alto bolinhas de miolo de pão. Ela sentou-se numa poltrona e pôs -se a fazer crochê. Essa situação durou muito tempo, e o pai começou a andar de uma sala para outra muito agitado, porém em silêncio. A alturas tantas, escreve Roberto, o pai se aproxima da filha com um revolver Smith and Wesson e atira na cabeça da moça. Em seguida foi para a sala de visita, sentou-se junto ao piano, e atirou contra a própria cabeça. Estupefação geral. A casa ficava no centro da cidade, na rua Benjamin Constant, e logo os gritos e choros foram ouvidos pelos vizinhos. A redação do jornal Estado ficava perto, na rua Quinze de Novembro, e seu repórter chegou em seguida.A narração agora é do "Estado". Abriu colunas para enumerar as personalidades que acorreram ao velório na própria casa. O "Estado" fez minuciosa cobertura e aventurou-se a tratar das causas da tragédia, coisa que o Correio não ousou fazer. Em síntese Sofia iria se casar dia 27, dali a uma semana. O noivo era o promotor público Manuel Batista Cepelos, moço de origem humilde, que a custo completara os estudos, e já se distinguia como poeta. Segundo o jornal, Peixoto Gomide nos últimos tempos demonstrava sinais de nervosismo. Chegou a confidenciar a amigos que não suportava a ideia de separar-se da filha. Chegou a consultar o psiquiatra Franco da Rocha. O que os jornais não publicaram, e foi a versão que correu durante muitos anos, especulava que o Peixoto Gomide seria o pai do noivo. Incapaz de confessá-lo teria recorrido ao ato de matar a própria filha e a si, para evitar o casamento. Curiosamente o escabroso caso nunca foi tratado pela imprensa como "crime", "assassinato", mas como "tragédia", "uma fatalidade", "uma obra do destino", "uma alucinação".

2 comentários:

Li Ferreira Nhan disse...

Caramba que história!
Andei tanto e por muito tempo pela Batista Cepelos (quando morei na Aclimação), não fazia idéia. Esses nomes nunca mais serão só ruas.

Jorge Pinheiro disse...

Como se diz por aqui, histórias de faca e alguidar.

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