31.5.15

Vigilante

Mãe atenta com o filhote

Crônica diária

O pior pesadelo

Cortázar escreveu "Janelas para o insólito" e em cinco páginas disse tudo que se pode dizer sobre fotografia. Uma delícia de texto. Mas escreveu sobre Metrô outras sete em 1978, igualmente fantásticas. Baixo nível é o título do texto. É lá que diz que "como no teatro, no cinema, no metrô é de noite". Adoro essas liberdades poéticas. E foi nesse exato momento que me veio à lembrança uma situação que vivi, e não me lembro de ter vivido outra mais aflitiva. Kafkiana. E não foi na Checoslováquia. Foi na Áustria, na pequena cidade de Linz. Estávamos viajando de carro e resolvemos parar para almoçar e caminhar pela cidade. Não havia lugar permitido para estacionar a não ser um enorme, moderno estacionamento subterrâneo. Talvez tenha sido esse o elo com o metrô do Cortázar. Minha mulher e eu paramos o veículo numa das muitas vagas. Anotamos mentalmente o lugar, número da coluna, corredor, como sempre fizemos nos grandes estacionamentos cobertos  de shopping e supermercados. Afinal somos medianamente civilizados, ainda que brasileiros quase monolíngue. Na Áustria o espanhol, italiano e até o inglês é de pouca serventia. De alemão não conhecíamos e continuo não conhecendo nada. Palavras sem vogal são impronunciáveis e muito menos inteligíveis. O fato é que na hora da saída não havia cristo que fizessem as máquinas aceitarem o pagamento e nos liberar. Tentamos duas, três vezes na primeira. Mudamos de saída e voltamos a tentar inutilmente. O telefone disponível para emergências não atendia. Não havia nenhum ser humano funcionário, nem usuário que pudessem nos ajudar. Fomos tomados pelo pânico. O que fazer? A vontade era de sentar no meio fio e chorar. Gritamos Help! Tinha eco, mas ninguém ouviu. E se alguém ouviu não se manifestou. Naquele tempo não me ocorreu que aquela inusitada situação serviria, um dia, para uma crônica. Teria sido um conforto. A Paula nessas horas fica pálida e muda. Eu é que tinha que resolver a questão. Deixei-a ao lado do caixa automático na esperança de que alguém entrasse ou saísse e nos pudesse mostrar como fazer. Fui duas quadras dali a uma delegacia de Polícia. Fiz-me entender. Tenho um carro no estacionamento e não consigo pagar para liberar o veículo. A única policial mulher de plantão me aconselhou chamar um funcionário pelo tal telefone. Expliquei que havíamos tentado mais de uma vez. O caixa eletrônico deveria estar com defeito, pois não liberava a cancela nem me devolvia as moedas. Já tinha pago umas sete ou oito tentativas. Mas foi em vão. A policial não poderia me acompanhar. Fiz cara de profundo descontentamento e fui pedir ajuda à caixa do restaurante onde havíamos almoçado. Contei nosso drama, e como os restaurantes fecham logo após as quatorze horas, se dispôs a me acompanhar. Quando chegamos a Paula já estava gesticulando e pensando fazer se entender com um solicito usuário. Não tínhamos mais moedas. Não fosse a moça do restaurante iríamos passar por malandros. Ela pagou nossa saída e jurei nunca mais estacionar em garagens na Áustria. Era preferível ter o automóvel guinchado, ou multado, do que passar pelo que passamos. Acredito que tenha sido o Dalton Trevisan quem disse que o melhor da viagem não é nem a partida, nem a volta, mas o que nos fazem contar.

30.5.15

Toda nudez é bem vinda

 Aeroporto de Florianópolis
Linda bota !...

Crônica diária



Flores e passarinhos

Aloísio, não é possível "falar de flores e passarinhos".  Com Dilma representando esse dramalhão que é a desgovernança do país não dá para falar de amenidades. Já me autodenominei anta, e a todos, que como eu, nunca votaram no PT, mas estamos fadados a pagar a conta. Há antas indignadas. Os tucanos nunca fizeram oposição e agora que perderam por pouco, as eleições fraudadas, no maior estelionato eleitoral de que temos notícia, continuam fazendo de conta que são oposição. Não assumem o papel que lhes cabe. Arrumam sempre um bode expiatório. Ora o jurista Miguel Reali Jr., ora o procurador de justiça Janot. Jogam a culpa de sua inoperância no judiciário quando o caso é de polícia e política. Preferem não assumir o "problema" agora. Posam de legalistas porque sabem que se houvesse, e deveria haver, o impeachment, seria o PMDB quem assumiria. Diante dessa premissa até eu fico na dúvida. Será que o PMDB é melhor do que o PT? Pobre país que enfrenta esse dilema. Assistam duas horas de TV Senado ou TV Câmara e me digam se é possível governar com nossos representantes? Somos uma grande manada de antas que elegemos víboras peçonhentas, vermes, ratos e baratas para legislar em nosso nome. Infelizmente, meu amigo anta Aloísio, acorde desse sonho onde existem "flores e passarinhos". Se convença que dia 12 de Abril próximo passado foi nossa derradeira oportunidade para salvar o Brasil. Teremos mais quatro anos de Dilma, e em 2018 o Lula voltará ao poder. Milhares de pessoas preferiram ir para a praia, ou lavar o carro na porta de casa, a sair às ruas para protestar num Domingo. Mesmo faltando água em São Paulo.

29.5.15

Orvalho

Orvalho - Maio - Piacaba - 2015

Crônica diária



Negócio da China

Houve tempo que fazer uma boa compra era chamado de "negócio da China". Portugal e toda a Europa compravam especiarias e sedas a bom preço. Depois produtos chineses viraram sinônimo de cópias baratas. Hoje tudo vem de lá. Os falsos de "primeira linha", e todos os outros produtos, não tão falsos, mas assim mesmo, baratos. Essas considerações nada tem a ver com o livro Crash, do escritor J.G. Ballard que filho de ingleses, nasceu em Xangai em 1930. Comprei enganado por uma frase do Anthony Burgess que o considera um dos maiores escritores de ficção. Mentira. Falso como um produto coreano. O autor se autodenomina pornográfico, e por isso abusa de sexo. Gratuitamente. Tenta mostra o mundo (1973) como absolutamente dependente e poluído de automóveis. Sexo e carro são suas matérias primas. Infantil e absurdo. Insano e pouco erótico. Automóvel para mim não provoca nenhuma ereção, muito menos orgasmos. E para a sedução de uma mulher há lugares infinitamente mais românticos, confortáveis e seguros. Não sei como fui cair nessa. 

PS- O livro foi filmado em 1996, mas também não verei. Tenho mais o que fazer.

28.5.15

Voltando ao Restaurante Jamie´s Italian

Voltamos para conferir as massas do Jamie´s Italian, em SP, e desta vez estava ótima. Spaghetti, molho de tomate, com almôndegas e na colher"pão dos pobres". Uma delícia.

Crônica diária

 As antas somos nós

                                                                    Toutes choses sont dites déjà, mais
                                                                     comme personne n´écoute, il faut
                                                                     toujours recommencer. ANDRÉ GIDE

Fui pagar a conta de luz, como chamamos a conta de energia elétrica. Consumo menor se comparado com os meses anteriores, mas valor maior em R$66,00 reais. Essa é uma das pequenas partes que me couberam na conta do ajuste fiscal. A Dilma gastou, fez e aconteceu, e eu compulsoriamente ajudo a pagar a conta. Não foi suficiente escrever exaustivamente alertando para esse fato. Meus leitores são testemunhas dos alertas. Nada foi feito contra ela a não ser algumas poucas panelas batidas. A vida continua. Com inflação, custo de vida mais alto, desemprego e greves. Ao mesmo tempo, a oposição que nunca existiu no seu primeiro mandato, continua votando a favor de suas medidas e propostas. O Congresso acaba de aprovar um novo ministro para o STF de passado não ilibado, contrariando o que exige a constituição. O que vai acontecer com o país? A Dilma com as medidas anunciadas pelos tucanos, em sua campanha, e negada por ela, vai entregar o governo em 2018 para o Lula. E a vida vai continuar. Somos literalmente umas antas. Caminhamos bovinamente para o que se pode chamar, "com a devida vênia", de venezuelização.

27.5.15

Terra dos arco-íris

Vista da minha janela na Piacaba - Maio de 2015

Crônica diária



Dalton, por que óculo? e não óculos?

Lendo o Dalton Trevisan (1925) descobri algumas de suas múltiplas excentricidades. Entre elas a questão das zonas dos portos, dos marinheiros. Mar em Curitiba? Ou a do relógio da praça matriz, parado, sempre marcando uma hora, ou são 13? Seus personagens, quase sempre, tem as suas configurações físicas. E nunca usa a palavra óculos, corretamente. Usa no singular: óculo. Por que será? Ninguém fala óculo. Muitas vezes, ao escrever, imita propositalmente a maneira errada com que as pessoas falam. Mas nesse caso nunca ouvi ninguém usar óculo no singular. Tive o cuidado de consultar o Aurélio, e por via da dúvida, o Google. Todos são unânimes em afirmar que embora exista óculo, não se usa no singular. E quando é uma lente só, se diz monóculo. Há alguns vocábulos que devem ser sempre usados no plural, tais como: "bruços" (Dormir de bruços), "costas" (dor nas costas), as hemorroidas, / os parabéns / os pêsames. Existem palavras que têm seu significado alterado quando  passam para o plural: "bem", significa virtude, "bens"=patrimônio. "Féria" é salário, "ferias" período de descanso. Mas um escritor da qualidade e idade do Dalton pode tudo.Pode até inventar palavras como; "desgracida" que usa muito, "frestando", ou "sem parança".

26.5.15

Comidinhas da Piacaba

Frango à Milanesa com arroz e queijo

Crônica diária

Maestro Salvador Callia

No ginásio, no meu tempo, como escreviam os velhos, nos velhos tempos, ensinavam música. Meu professor era o Maestro Callia, que como bom imigrante italiano (1921) tinha um sotaque acentuado. Ao entrar na sala de aula do Dante, onde lecionou 40 anos, proferia uma frase em italiano: "sentem e tomem nota". E nós sentávamos, dois a dois, em carteiras de madeira. Eu era o quatorze da turma. Coincidentemente estou lendo "Um ano", livro do chileno que usava o pseudônimo jocoso de Juan Emar, extraído do francês: "J´en ai marre", "estou farto". Seu verdadeiro nome era Álvaro Yánez Bianchi (1893-1964). Ele também tinha uma certa superstição ou afinidade com o número quatorze, e o usou  várias vezes em seus textos. E quando li a palavra: "inverossímil" no seu texto lembrei me do químico e filho do maestro. Como é nossa memória. Uma palavra pode nos remeter a sessenta anos atrás e voltar no tempo das aulas de música do maestro Callia. Seu filho, como disse, químico, é autor da mais hilária definição de isopor. Ele definia esse material recém surgido no mercado lá pelos idos de 1950 como "um aglomerado de poliestireno expandido de peso inverossímil". Vejam só as voltas que a memória dá. Lendo um autor chileno, o número quatorze me reportou às aulas de música, que por sua vez ao filho do maestro Callia, químico que definiu o isopor. Contado assim, tudo isso pode parecer inverossímil. Mas é verdade.

Comentários que valem um post

Walter De Queiroz Guerreiro tua última frase vale a crônica:" e sua zona preferida é a portuária. Mesmo em Curitiba."
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 Ronaldo Werneck "Fala do mar como velho marinheiro, e sua zona preferida é a portuária. Mesmo em Curitiba". Belo resgate do grande Dalton, meu caro Eduardo. Abraços Ronaldo.
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 Gaspar de Jesus deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Comentários que valem um post":

Zazá. Aqui em Portugal o único Rodízio que já experimentei e gosto, é de Picanha. De Pizza nunca comi. Já este de Prostitutas... nem sei que lhe diga: sem pensar apetecia-me dizer também quero; mas pensando melhor, acho que o Ser Humano enquanto tal, deveria dar-se mais ao respeito.

Postado por Gaspar de Jesus no blog . em segunda-feira, 25 de maio de 2015 08:47:00 BRT 
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25.5.15

Abertura da Barra de Ibiraquera


Um acontecimento notável na praia. Abertura da barra.
 Canal sendo aberto da lagoa para o mar
 Água saindo da lagoa para o mar. Agora o próprio mar vai voltar a fechar a barra dentro de um a nove meses. Imprevisível.

Dalton Trevisan

Considerado por muitos intelectuais como o mais importante escritor vivo brasileiro. Rei da síntese. Grande escritor de textos curtos. Curtíssimos. Resolvi fazer a resenha do seu livro "O beijo na nuca" transcrevendo algumas frases do livro. Ninguém melhor do que o próprio para falar sobre sua obra. (Aqui vai, também, uma brincadeira com o escritor que não dá entrevista, não fala sobre sua obra, nem deixa se fotografar).
"...amores pagos sobre colchas vermelhas."
Sobre viagens marítimas: "O mais divertido não é partida nem volta_ é ter de contar."
"Como  atendê-la quando na sua torre doña Inês pinta de azul da china as unhas do pé?"
Diz, em outras palavras, que um texto deve ter o número correto delas, nenhuma supérflua, todas na medida e pesadas. Assim como um pássaro tem o número certo de penas."
" Ah, é? Saco do 38 e  atiro no peito da palavra fugidia".
Noite: "As mulheres são mais queridas a essa hora. O rosto iluminado pelo farol dos carros é promessa de delícias".

Digo eu: a maioria dos seus mini contos passam-se em Curitiba, e alguns outros são registros de viagem à Europa. Fala do mar como velho marinheiro, e sua zona preferida é a portuária. Mesmo em Curitiba.

Comentários que valem um post

Li Ferreira Nhan deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Crônica diária": Dava um roteiro para um curta.
Acho que essa crônica não criará polêmica.
...
Sei lá, não sou feminista.
:))

Postado por Li Ferreira Nhan no blog . em domingo, 24 de maio de 2015 07:07:00 BRT 
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 Luiz Briquet Adorei a narrativa, embora deteste as putas!.... Nada como a conquista, meu caro, nada como a conquista.

 Eduardo Penteado Lunardelli Luiz Briquet, parodiando o diálogo da colecionadora americana e Picasso, que ao ser perguntado "onde estava o olho do rosto da mulher, respondeu: Isso não é uma mulher, é uma pintura." Aqui também é só literatura, não é apologia à prostituição...srsrs
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 Zazá Do Val Rodízio de putas!?! Igual ao de pizza!?! Bela imaginação! Quanta criatividade! Kkkkk
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AS POSTAGENS ANTERIORES ESTÃO NO ARQUIVO AÍ NO LADINHO >>>>>

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