2.11.15

Crônica diária

 "Leite diretamente da fonte"
O ready-made,  ou objet trouvé, no original francês, ou ainda a forma mais radical da arte encontrada, cuja paternidade costuma-se creditar a Marcel Duchamp. Essa estratégia refere-se ao uso de objetos industrializados no âmbito da arte, desprezando noções comuns da arte tradicional como estilo ou manufatura do objeto de arte, e privilegiando sua produção, primariamente, à ideia. Posto isso, eu estava fazendo minha caminhada matinal na praia de Ibiraquera, onde moro, quando subitamente (palavra usada em memória ao Frederico Nasser) encontro meio enterrada na areia uma tampa de louça branca. Imediatamente cavei, peguei a preciosidade, limpei com as mãos a areia depositada no seu interior, e levei-a para casa. "Achados na praia" é uma extensa série de trabalhos que produzi ao longo da vida. Mas especialmente essa tampa de louça branca teria um fim ainda mais nobre. Se tornaria um ready-made e não só um simples objet trouvé. A diferença é sutil. Sobre a mesa, em frente ao sofá onde costumo sentar para ler, tenho há algum tempo uma tigelinha sobre um pires, e nela mantinha balinhas de goma, que adoro, e para oferecer para as visitas. Acontece que de uns tempos para cá, as balinhas "evaporavam". Não posso acusar ninguém porque não tenho certeza absoluta de quem resolveu come-las constantemente. No princípio eram umas três ou quatro, nem me incomodava, mas passou a come-las sem deixar uma única. Aí já era demais. Para não criar um caso com as pessoas que tem acesso ao estúdio, resolvi "esconder" minhas balinhas de goma, e manter por um tempo vazia a tigela. Ao chegar em casa com a tampinha da praia a ideia de coloca-la dentro da tigela foi quase imediata. Digo quase, porque antes tentei que ficasse na parede presa por um prego. A parte interna não tinha forma e aderência para suportar seu peso. Foi quando sentei no meu lugar de sempre, com a tampa na mão, e a ideia de coloca-la na tigela foi redentora. Estava criada o peça: "Leite diretamente da fonte", porque a tampinha era um pequeno seio. Fazer arte foi um vício que cultivei durante cinquenta anos. De seis para cá, escrevo ao invés de pintar. Mas tenho recaídas, como podem notar. A foto ilustra a crônica. Mas não seria bastante para contar a história que envolve a nova "obra". Qual teria sido a história do aro de bicicleta sobre a banqueta de cozinha do Duchamp (1913)?

Um comentário:

Gaspar de Jesus disse...

Se a tampinha falasse, por certo que daria matéria para mais um livro seu Eduardo.

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