1.11.15

Crônica diária

Ismael Nery

Estou lendo o ultimo livro do Leonardo Padura, "Hereges", onde o detetive Mario Conde esta atrás de um Rembrandt. Abro o jornal e vejo matéria de página inteira sobre uma exposição de cem obras, de coleções particulares, do artista Ismael Nery, pouco conhecido do grande público. Para quem não sabe, esse paraense de nascimento, viveu a vida toda no Rio. Há quarenta e cinco anos atrás ele era, ainda, mais desconhecido do que é hoje. Eu morei dois anos em Belém. Passei todo o tempo antenado, pois era colecionador de uma meia dúzia de desenhos e nanquins do artista. Comprados em leilões do Bacaro. Em Belém ninguém tinha ouvido falar da obra do Nery. Numa sexta feira coloquei minha mudança num caminhão de volta a São Paulo, me hospedei num hotel para embarcar na segunda e encontrar a mudança chegando. No sábado, lendo o jornal Liberal, uma pequena nota de três linhas na crônica social dava conta de uma pessoa que pretendia vender duas telas a óleo do Ismael. Não acreditei. Duas telas a óleo desse artista representavam 2% da sua produção. Desenhos, nanquim e aquarelas produziu muitos, mas telas a óleo talvez não chegasse a 100. Em poucas horas entrei em contato com o colunista, aluguei um carro, o meu VW verde abacate já tinha vendido, e fui parar na área rural de Belém, a uns oitenta quilômetros da capital. Numa casa modestíssima fui recebido pelo agricultor e proprietário de duas obras raríssimas do "IN". Ele assinava assim: um "I" sobre o "N". Estavam embrulhas num cobertor cinza vagabundo e amarradas com barbante de sisal. O estado das pinturas era lamentável. Até respingos de cal haviam sobre a pintura. Alguém pintou uma parede sem tirar do prego a tela. Ninguém em Belém compraria aquelas pinturas naquele estado. O dono delas não tinha a menor noção de como leva-las para o Rio ou São Paulo, manda-las para um restauro, fazer o expertise e coloca-las no mercado, que não tinha nenhuma interesse de aumentar em 2% as obras a óleo do artista. Consegui fazer o gerente do Bradesco de Belém abrir a agência num sábado, perto das dezoito horas, para fazer o pagamento, em espécie, ao fazendeiro. Um paulista sem residência fixa, hospedado num hotel, com auto alugado, não merecia nenhum crédito. O cheque seria uma temeridade. Mas a oportunidade de fazer o negócio também pareceu única ao paraense. Quando mostrei o que havia comprado para minha mulher, ela não acreditou. Quase me matou. Pagar, o que na época, era uma fortuna para nós, e ainda, em duas telas naquele estado, uma verdadeira loucura. Eu sabia o que estava fazendo. Uma semana depois de ter chegado, e ainda meio acampado no meio da mudança, levei as telas para o professor Bardi, diretor do MASP, dar uma olhada. Gostou muito do que viu, tanto assim que ofereceu o restauro no próprio museu. Depois mandei fazer duas lindas molduras de época (1929) no moldureiro do museu. Uma das telas minha mulher não queria em casa porque representava a cabeça de Cristo agonizante. Vendi, e o valor cobriu a compra das duas, os restauros e as duas molduras. Ficar com um dos primeiros óleos do "IN", completamente de graça, foi ótimo.

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