14.10.15

Crônica diária

"Esta história"

 Comprei pelo site dos sebos brasileiros, denominado "Estante Virtual" meia dúzias de títulos do Alessandro Baricco. Foram despachados de seis pontos diferentes do país: Rio, Belo Horizonte, São Paulo, Piracicaba (SP), e este livro a que me refiro, do Sebo Brechó, que desde 1998 esta estabelecido em Ribeirão Preto na rua Marinho, 515, Centro. A compra virtual tem dessas magias. Você tecla, escolhe, paga, acompanha o andamento da entrega e finalmente tem em mãos um livro, ou qualquer outra coisa, sem nunca ter ido à loja comprar. E objetos de segunda, ou muitas outras mãos, não se sabe quem? por que? como usaram? e se desfizeram deles. No caso do livro "Esta história", com 295 páginas e letras miúdas vou  levar alguns dias lendo. As primeiras vinte não me disseram nada. Mas o livro tem anotações à lápis, com caligrafia miúda, e feminina. Logo no alto da página de rosto esta escrito "Quamané" dezembro 2008 (Iê). No verso da contra capa :"39-16=23" sempre à lápis. Quem leu, seja ele ou ela de que gênero for, estava muito preocupado em conferir as datas que Baricco cita na história.  No início do capitulo 'A infância de Ultimo" o leitor (a) anotou: "1897-Nasce Ultimo", "1902 corrida carros", riscou duas vezes, sobre essas duas palavras, e em seguida escreveu: "(viu o 1ºcarro", "1907 abre garagem", "1911- chegada conde". Na página seguinte: "5anos corrida" logo abaixo "1897" e colocou essa data num retângulo. "1904" esta grifado, nessa mesma página. Por que tanta obsessão por anotar, grifar e conferir datas? "O futuro chegou a pé, em 1911" com pé, em 1911 grifado. Já na página 59 grifa três linhas: "Explicou que ninguém deve acreditar que está sozinho, porque em cada um vive o sangue dos que o geraram, e é algo que anda para trás até a noite dos tempos." Se pela caligrafia já desconfiava tratar-se de um adulto (a) com bastante idade, esse grifo meu deu mais certeza. Jovens não tem a preocupação com datas e frases filosóficas como as acima grifadas. O tempo é outra preocupação da leitora (o), no grifo a seguir: "Onde vai parar alguém que por uma hora dá a volta no quarteirão? Pense nisso. Não há resposta." Por que fui tendo certeza de que era uma leitora de muita idade? Vejam o grifo na página seguinte: "...sua mãe tinha dois corações e que ambos, naquele instante, haviam sido feridos mortalmente". Só uma mulher grifaria essa frase. Em seguida grifa: " Porque não corre reto o coração dos homens e não há ordem, em seu andamento." Nenhum leitor do sexo masculino grifaria, ou daria maior importância, a esse parágrafo. "1º Guerra" escrito a lápis na abertura do capitulo "Memorial de Caporetto". Nada anotado ou grifado nas cinquenta e nove páginas seguintes, e aí seis páginas e meia riscadas nas margens laterais com grande ênfase. Notadamente esta frase que foi também sublinhada: "Uma estrada como nunca ninguém imaginou. Uma estrada que termina ali onde começa". Logo a seguir grifou:"Não levará a lugar nenhum, porque levará a si própria, e será fora do mundo, e distante de qualquer imperfeição." E completa os grifos que, a para mim, tocam as almas femininas: "... de ligar o motor e reaver sua vida. Vou sentir não estar ali, nesse dia, disse. ... Ele debruçou em minha direção e, com a ponta de um dedo, roçou a curva de minha testa... Vai estar, disse". Essas ultimas palavras, envolveu-as, num circulo completo. E por fim há mais anotações sobre datas, nomes de personagens, datas do ano de nascimento e morte.  Nesse ponto vai se entender aquela adição da contra capa:  "39-16=23". A leitora estava conferindo quantos anos tinha uma personagem quando se casou. A quem poderia interessar todos esses detalhes? Uma velha senhora italiana? "Esta história" é de um famoso autor italiano. A trama é sobre corrida de carros, Paris, Madri, 1950.Mil Milhas, e anotações de mais datas: " 1954 +1961 (riscado) 1969-67anos." Antes de concluir a leitura do livro, as anotações e grifos da pessoa que me antecedeu, já me fizeram fantasiar o suficiente para ter justificado a compra. O livro veio de Ribeirão Preto cheio de histórias que o próprio Baricco nunca sonhou. Quando havia chegado a este ponto da minha crônica, me deparo nas Notas, do fim do livro, uma observação da leitora que me voltou a deixar em dúvida: "carro q fez Pequim/Paris em 60 dias". Uma senhora saberia tanto assim de automobilismo? O mistério continua. Vou deixar pra lá esse personagem e mergulhar na leitura. Aí me deparo com essa frase: "Mas escrever é uma forma sofisticada de silêncio". Talvez fosse um jornalista especializado em automobilismo. Nunca saberei.

Um comentário:

João Menéres disse...

Tendência para o policiário, né, Eduardo ?

AS POSTAGENS ANTERIORES ESTÃO NO ARQUIVO AÍ NO LADINHO >>>>>

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