7.7.15

Crônica diária



Bela Cintra 4

Mistério e humor nas histórias do condomínio onde moro. De um dia para o outro começou a chegar flores para as esposas dos moradores do prédio. Eram sempre rosas vermelhas de cabo muito longo. E sempre uma dúzia. Os entregadores nunca eram os mesmos. A letra do cartão, esta sim, sempre a mesma. E o texto no cartão sempre dizia a mesma coisa: "Com amor, do seu fã." Mistério. Nem o porteiro, nem o zelador tinham a menor ideia de quem estava enviando as tais rosas vermelhas de cabos longos. Encaminhadas para os respectivos apartamentos, o casal recebia com absoluta desconfiança. Deve ser engano. Mas os envelopes eram claros, fulana de tal, apartamento número tal, no andar tal, do nosso condomínio,  não deixavam dúvida. Uma fez por semana, aleatoriamente, sem ordem crescente ou decrescente de andar, um apartamento, entre os trinta e does era premiado com o buquê de rosas vermelhas de cabos longos. E as esposas dos moradores reagiam de forma diferente. Umas ficavam indignadas, e sem levar o buquê de flores para dentro do apartamento, jogavam com nojo, na lata de lixo do hall de serviço. Batiam a porta, e saiam blasfemando para que todos em casa, inclusive o marido, ouvissem o que pensava daquele maníaco. Outras, ao contrário, recebiam surpresas, agradeciam o faxineiro portador, e corriam para mostrar as rosas vermelhas de cabos longos para o marido. E havia ainda aquelas que não haviam recebido as rosas. Essas ficavam num misto de inveja e despeito, até o dia que as suas chegavam. Todas as mulheres casadas no prédio foram agraciadas. As mesmas rosas, o mesmo cartão, sempre com entregadores diferentes, e floriculturas diversas. Houve uma reunião de condomínio para tratar do assunto. O constrangimento era evidente. Maridos traídos, mulheres adulteras e um maníaco pondo em xeque a fidelidade alheia. Depois de acaloradas discussões, onde inúmeras versões foram aventadas, deliberou-se que o síndico, que era delegado aposentado da polícia, cuidaria do caso. Visitou algumas floriculturas, entrevistou funcionários, e não conseguiu nenhuma pista do Don Juan  que assediava as esposas dos condôminos. Depois de oito meses todas as mulheres casadas tinham recebido suas flores. Todos os maridos tinham ficado com a pulga atrás da orelha, e todos se cumprimentavam com a cabeça baixa, como se algum "peso" lhes pesasse na testa. O mistério perdurou. As esposas que no primeiro buquê se indignaram, e jogaram as rosas na lata do lixo, passaram a leva-las, até com certo orgulho para vasos na sala. Os cartões que eram rasgados, com falso moralismo e ódio, passaram a ser colecionados numa gaveta da cozinha. Guarda-los no quarto ficava mal. A vida continuou no condomínio, e uma vez por semana as rosas vermelhas com cabos longo continuaram a chegar. E como as endereçadas eram aleatoriamente escolhidas, criou-se certo frisson em saber quem seria a próxima. E de uma semana para a outra a brincadeira acabou. O fã brincalhão, subitamente,  mudou o condomínio alvo. Um dia poderá ser o seu.

Um comentário:

Jorge Pinheiro disse...

Uma história romântica. Com pouco mais de ficção podia virar crime passional.

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