19.6.15

Crônica diária

 Dias cinzas

A noite foi de muito calor e pernilongos. Pessimamente dormida. Quando o dia clareou não tinha a luz habitual de manhãs de sol. Estava nublado e escuro. Levantou e nem abriu a veneziana como fazia de costume. Beirava sessenta e oito anos, viúvo há dois, e nos últimos meses andava muito deprimido. Se arrastou com os olhos semicerrados até o banheiro, urinou como sempre, escovou os dentes, sem olhar para o espelho, e volto para o quarto. Colocou a roupa de trabalho e chamou o elevador. O mostrador indicava que vinha descendo, mas passou sem parar no seu andar. Definitivamente aquele não era seu dia. Voltou a apertar o botão do elevador e quando esse chegou lembrou de entrar com o pé direito. Notou algo estranho no olhar, e no bom dia, do seu João da portaria. Passou a mão no rosto e percebeu que não havia feito a barba nem penteado o cabelo. Respondeu cabisbaixo: "Estou atrasado". Na calçada, a caminho do ponto de ônibus, pisou num coco de cachorro. Foi raspando o pé melecado por uns bons passos, enquanto praguejava contra a raça humana, como um todo. O mundo conspirava contra ele. Não havia chegado no ponto quando, com um gesto que lhe era habitual, passou a mão no bolso traseiro da calça, e percebeu que havia esquecido a carteira. Não havia outra alternativa. Voltou, ainda raspando a sola do sapato. Passou pelo seu João dizendo: "Esqueci a carteira". Essas teriam sido suas ultimas palavras. Abriu a porta do apartamento de dois cômodos. Trancou a porta como quem não pretendia mais sair de casa aquele dia. Foi para o quarto, e ao invés de pegar a carteira que estava no criado mudo, abriu a gaveta. O trinta e oito, cano curto, marca Taurus estava lá como nos últimos trinta e tantos anos. As balas no tambor, como no dia que comprou a arma de um companheiro de oficina. Pegou o revolver, abriu a boca e puxou o gatilho mirando para o céu. Estalo seco. Tirou espantado o cano da boca. Abriu o tambor da arma, conferiu os projéteis. Estavam todos lá. A umidade e os trinta anos danificaram a espoleta. Caiu de joelhos num choro profundo e desesperado. Um tempo depois, ainda soluçando olhou a claridade que entrava pela veneziana fechada. Foi até a janela, abriu, e um sol lindo da manhã invadiu seu quarto, batendo de frente com seu rosto molhado de lágrimas. Foi ao banheiro, fez a barba, penteou os cabelos grisalhos, pegou a carteira, trocou de sapato, e o elevador ainda estava no seu andar. Ao sair na rua ouve uma buzina e reconhece um colega de trabalho que lhe cumprimenta e oferece carona. Ao entrar no carro do amigo, fala com convicção: " Sou um homem de sorte, iria chegar atrasado".

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