15.6.15

Crônica diária



A escultura de César

Em 1980 Julio Cortázar escreveu um texto sobre uma história verdadeira (apesar de inverossímil) de um casal de jovens agricultores poloneses que resolveram visitar um tio em Paris. Como não falavam francês, o tio, por telefone, deu as instruções de como eles deveriam proceder para chegarem até sua casa. Venham pela auto estrada e deixem o carro numa garagem ao lado da estação do metrô. Entrar de carro no centro de Paris é complicado. O casal, com um bebê de colo, não teve grande dificuldade linguística até chegar a uma enorme garagem. Trocaram monossílabos e sorrisos por frases incompreensíveis e um tíquete verde. Desceram para o metrô, com a roupa do corpo e com o filho no colo. Deixaram as malas e presentes no carro. Chegaram a pensar em deixar a criança no banco traseiro, até encontrarem a casa do tio, e depois voltar para apanhar tudo. Mas desistiram da ideia. (Esse detalhe é importantíssimo). O velho tio os esperava no modesto apartamento onde houve lágrimas, abraços e um brinde com vodca legítima. Na hora de ir buscar o carro para trazer a bagagem e os presentes da família, o sobrinho entregou o tíquete verde ao tio que depois de olhá-lo ficou tão verde quanto o papel em questão. Precipitou-se escada abaixo seguido pelo aflito sobrinho. No trajeto de metrô o rapaz ainda tentou entender o que estava acontecendo. O tio só conseguiu dizer-lhe que não dissesse nada e rezasse para a Virgem, São Tadeu e a corte celestial etc. Entraram correndo na garagem e, após um diálogo do qual o sobrinho só conseguiu entender o desespero do tio, e as gesticulações franco-italianas do vigia de plantão. Foram levados até um pátio cheio de tratores e máquinas enormes. Sob o luar viram dezenas de cubos metálicos de diferentes cores, um deles era o carro do jovem sobrinho. O carro havia sido submetido ao processo de compressão, que era um dos orgulhos da tecnologia francesa, para se livrar dos carros invendáveis e talvez favorecer a celebridade do escultor Richard César. Ver o fruto de um velho sonho e de lentas economias transformado num enorme dado é uma experiência horrível. No entanto, depois dos chiliques e gritos do casal, tiveram tempo para pensar que não deveriam lamentar tanto aquele sinistro mal-entendido, porque no momento da chegada a Paris o bebê dormia profundamente no banco traseiro. Depois de passarem dois dias horrorosos numa cidade que tinha perdido qualquer sentido, voltaram de trem para Varsóvia, sem suas malas, sem os fiambres, garrafas e outros presentes que poderão, um dia, serem identificados num museu, num cubo metálico, do César.

Um comentário:

João Menéres disse...

Verdadeiramente inverossímil !
Digo eu...

AS POSTAGENS ANTERIORES ESTÃO NO ARQUIVO AÍ NO LADINHO >>>>>

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