27.12.14

Crônica diária

 Estação de trem

O personagem Tsukuru Tazaki do romance do Haruki Murakami que comentei ontem era tarado por estações de estrada de ferro. Não pude deixar de lembrar que uma forte imagem que tenho da minha infância também esta ligada à estrada de ferro e suas estações. Meu pai trabalhava no interior de São Paulo, e nas férias nos levava para a fazenda de trem. Embarcávamos na Estação da Luz, e tomávamos o leito para a cidade de Bauru, onde a estação era grande e ponto de confluência de muitas linhas ferroviárias. Como ele usava esse meio de transporte o ano todo, pois morávamos em São Paulo, e ele ia e voltava todo mês, o carregador e motorista do táxi que o atendia eram sempre os mesmos. Ficaram íntimos. Ao chegar nas primeiras horas da manha na estação de Bauru o carregador 13 já estava a postos na plataforma para nos atender. Ele colocava nossas malas no carrinho, muito diferente dos atuais de aeroporto, e levava a bagagem diretamente para o ponto de táxi na porta da estação. Nós íamos para o restaurante tomar o café da manhã. Essa era uma rotina que não mudava. Criança gosta dessas certezas e segurança. Eu nunca tinha visto o "nosso carregador" sem o quepe e jaleco branco com a placa oval de cobre dourado com o número 13 em preto, na altura do peito, e uma correia de couro cruzando do ombro na cintura. Assim andavam os carregadores naquele tempo. No quepe também tinha uma plaquinha menor com o 13. que o identificava. Certo dia tirou o quepe para agradecer uma gorjeta que meu pai havia dado, e descobri que era completamente careca. Outro homem. Nunca o teria reconhecido em outras circunstâncias. Esse pequeno detalhe ficou gravado para sempre. Não lembro do nome dele, nem do taxista, mas do fato de ter descoberto um outro homem sob o quepe do treze,  nunca mais me esqueci. Lembro ainda o cheiro das estações daquele tempo. As locomotivas eram à lenha. A luz fria de neon , e o cheiro de café, recém passado,  eram as característicos do restaurante da estação. Mesas com toalhas e louça branca com friso azul, e muito grossas. Da cidade de  Bauru na fazenda eram seis horas de carro em estrada de terra. Essas seis horas eram o começo, na ida, e o fim das férias, na volta.

2 comentários:

Jorge Pinheiro disse...

Tenho poucas memórias de comboios e estações. As viagens que fazia para Bragança (quase 600 km)em miúdo eram ja de carro. Gostei muito da descrição.

João Menéres disse...

Também me lembro dos carregadores de bagagem na Estação de S. Bento, aqui bem no centro do Porto, sempre que íamos de combóio para o Romeu nos idos 40.
Só nunca soube se algum era ou não totalmente careca.
O meu interesse ainda eram, e só , as locomotivas a carvão e o imenso movimento de muita azáfama em qualquer dos cais que serviam múltiplos destinos.
Sempre havia gente a correr cais fora !
Quer fosse à chegada ou à partida.

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