REMBRANDT
A imagem acima é a do ultimo autorretrato do pintor, aos 63 anos (1669, Mauritshuis, Haia, 65.4 x 60.2 cm). É obra característica de seus últimos anos, as pinceladas largas e, como sempre, uma maneira nova de pintar a cada tela.
Em alguns lugares, na testa, por exemplo, parece que ele moldou a tinta. Em outras partes, o pincel apenas deslizou sobre a tela, com uma precisão incrível. Reparem ainda nos olhos brilhantes, que mostram um homem que pode estar velho, com a pele cansada, alquebrado pelos anos e pelas desditas pela quais passou, os cabelos brancos, mas com o espírito curioso, atento, interessado: seu olhar nos prova isso.
Foi somente a partir do final do século dezenove, quando estudiosos se debruçaram sobre a obra de Rembrandt como um todo, que se descobriu quantas vezes ele retratou a si mesmo.
Não conhecemos o número exato, mas parece que ele deixou, entre óleo, gravuras e desenhos, mais de oitenta autorretratos. É caso único no mundo das artes. E por quais razões Rembrandt fez isso, é um mistério até hoje.
A maioria dos estudiosos, até vinte anos atrás, interpretava essa quantidade de autorretratos como uma espécie de diário visual do artista, um exercício de autoconhecimento.
Em um livro de 1961, o historiador de arte Manuel Gasser escreveu: “Os autorretratos de Rembrandt, ao longo dos anos, foram se tornando um meio do artista adquirir autoconhecimento e no final tomaram o lugar de um diálogo, um velho solitário conversando consigo mesmo enquanto pintava”.
Há, no entanto, estudiosos de arte que pensam de outro modo: Rembrandt se retratava como estudo e estoque de expressões faciais e figuras que serviriam para seus quadros históricos. Alguns pensam na dificuldade que encontrava em pagar modelos. O que não explicaria a quantidade de autorretratos de quando ainda estava muito bem de vida e de bolso...
Outros acreditam que o artista usava seus retratos como mostruário para atrair clientes, o que esbarra no seguinte: sem clientes, velho, solitário, por que continuaria a pintar, a não ser que fosse pelo fato da pintura ser sua vida?
(Imagem aos 51 anos - 1657, National Gallery of Scotland, 52.7 x 42.7 cm)
Em um estudo sobre os famosos autorretatos, feito pelos psicanalistas Maria e Martin Bergmann, eles citam Freud: “Quando pensarem em mim, pensem em Rembrandt, um pouco de luz e muita escuridão”.
E lembram que somente uma geração separa Shakespeare de Rembrandt, dois gênios que muito contribuíram para a capacidade humana de voltar o olhar para dentro de si mesmo.
Famoso e rico aos trinta anos, Rembrandt morreu acabrunhado e na miséria aos 63 anos, em 4 de outubro de 1669. No cavalete, um quadro inacabado. Em seu testamento deixou "algumas roupas de linho ou lã e minhas coisas de pintor" e uma obra que marcou um dos pontos culminantes na História das Artes.
Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606/1669)






3 comentários:
Valeu, Eduardo.
Um pouco de luz e muita escuridão...
Não importa a quantidade de auto retratos. O que realmente conta é a qualidade e a excelência de todos eles.
E o seu testamento foi para a humanidade.
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