WALDO DOMINGOS CLARO, um jornalista, um eterno jovem, um idealista
HORA DE PARTIR
Waldo Claro
Com esta crônica , neste friorento 30 de maio de 2011 , encerro minhas atividades como jornalista e a feliz colaboração e convívio de 16 anos que mantive com meus amigos e leitores do “Comércio do Jahu” . Assim é a vida e assim é o inexorável relógio que a rege . Há hora para tudo e tudo ele nos cobra no momento exato , sem perdoar sequer os segundos e suas frações . Houve a minha hora de chegar ao jornalismo , que abracei com paixão e com orgulho . Permitam-me algumas confissões a respeito , pois despacham-me agora para longe as lembranças e recordações daqueles dias . Era um molecote mal chegado aos quinze anos quando publiquei minhas primeiras linhas na saudosa “Folha de Pinheiros” , em São Paulo . E tomei gosto pela coisa . E lá se vão 58 anos desde esse batismo nas tintas e no chumbo de uma oficina de jornal . Veio depois o jornal “A Hora” , barulhento e escandaloso , perdido numa ruela do bairro da Liberdade . Nele , como líder estudantil na época , hasteei bandeiras hoje inconcebíveis . Marchas de protesto . A engenhosa “fila única” , para o garantir o direito dos estudantes à meia-entrada . Desafio contra a instalação da “American Can” no Brasil , que viria asfixiar a nossa nacional Industria Matarazzo . E , partindo de um jovem considerado “de direita “ , a surpreendente defesa de Luis Carlos Prestes e de seu direito de abraçar uma causa e de defende-la publicamente . Arroubos de uma juventude fermentada pelas lutas em favor da democracia .
Veio depois a longa e útil experiência na “Gazeta Mercantil” , dirigida então pelo querido amigo Adelmo Sampaio . Foi um dos primeiros jornais especializados em economia que surgiu em São Paulo e nele eu escrevia , na primeira página , um editorial político diário . O jornal pertencia a Herbert Levy , deputado federal e presidente nacional da UDN e de quem eu era secretário particular . Já tinha a pena endiabrada e , graças a ela , ganhei uma montanha de processos movidos por poderosos da época . Todos arquivados pela Justiça . Foi durante essa experiência que fiquei conhecendo dois de meus primeiros mestres no jornalismo : Carlos Lacerda e David Nasser . Alem de deputado federal e posteriormente governador da Guanabara , Lacerda era proprietário do corajoso jornal “Tribuna da Imprensa” , com o qual colaborei . Nasser , por sua vez , era o mais competente e famoso articulista da época e escrevia na revista “O Cruzeiro” . Ambos me orientaram nos momentos iniciais e mais difíceis de minha vida profissional .
Com Lacerda , especialmente , aprendi uma lição de coragem da qual jamais me apartei . Tinha escrito um artigo pesado contra o então ministro da Justiça do presidente João Goulart e , conhecendo os seus métodos repressivos , consultei Lacerda sobre a conveniência ou não de publicá-lo . Confessei a ele o meu medo das conseqüências . O mestre sequer se deu ao trabalho de ler o que eu escrevera . Colocou as mãos em meu ombro e sentenciou : “ Se você não tem certeza da veracidade do que escreveu , não publique . Se você tem certeza de que escreveu a coisa certa mas tem medo de publicá-la , não publique também . Neste segundo caso , porem , abandone a profissão . O jornalismo não foi feito para covardes” . Jamais esqueci essa lição .
Essa década dos 60 começou violenta e impetuosa e não admitia posições intermediárias . Era esquerda ou direita . A esquerda estava no poder e , sob o comando de Jango e Brizola , parecia articular um levante para instaurar no país uma República Sindicalista . Até que chegou o 31 de março de 1964 e as Forças Armadas colocaram um fim na brincadeira . Depuseram Jango e iniciaram os anos de chumbo que perdurariam por vinte anos . Apoiei decididamente o movimento revolucionário , mas com ele rompi ainda durante o governo do marechal Castelo Branco , quando percebi que entrara no barco errado . Nem a corrupção fora desarticulada , nem a democracia restabelecida . Publiquei então na Gazeta Mercantil um editorial intitulado “O Último Canhonaço” , em aberto desafio ao regime militar . Rompi com o regime , mas jamais com a democracia .
Corria ainda o ano de 64 quando recebi de Júlio de Mesquita Filho o convite para fazer parte do seleto grupo de redatores do jornal “O Estado de S. Paulo” . Expliquei a situação a Herbert Levy e , logo em seguida , transferi-me da Rua São Bento para o Viaduto Major Quedinho . Para orgulho meu , já fazia parte do “Estadão” como redator de política internacional . E ali deixei o tempo esvair . Foram trinta anos de trabalho e de aprendizado diário , convivendo com os maiores nomes do jornalismo brasileiro como Ruy Mesquita , Oliveiros S. Ferreira , Nicolas Bôer , Frederico Branco , Cleonte Pereira de Oliveira e tantos outros companheiros inesquecíveis . Trabalhando , corri o mundo . E já tinha a meu lado outros dois mestres : Júlio de Mesquita Filho e seu filho Ruy . Ambos acabaram por lapidar a pedra ainda embrutecida .
Aposentei-me em 1992 e dois anos depois vim para Jaú , onde nasci e onde morava minha família . A meta era o ócio e a tranqüilidade . Mas logo na chegada vim a conhecer Waldemar Bauab e as coisas mudaram de figura . Quando soube que eu era jornalista fechou questão e me convidou , sem direito a recusa , a ser um colaborador do “Comércio do Jahu” . Assim , numa sexta-feira , 20 de janeiro de 1995 , o jornal estampava na primeira página matéria com foto informando que , a partir daquele dia , eu passava a ser um dos seus articulistas . E essa colaboração , com breves interrupções , durou 16 anos . Anos que me brindaram com momentos de alegria e felicidade . Houve a hora de chegar . É chegada a hora de partir .
waldoclaro@uol.com.br




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