28.2.11

LAERTH MOTTA, ensaio sobre ARTE no "O BURACO NO BOLSO"

O MATERIAL E O TEMPO, A OBRA E O ESPAÇO.

Resumo: Sob a minha visão de artista e meus experimentos estéticos, este trabalho busca compreender o processo criativo e elucidar o diálogo no momento da produção. Trata-se de uma busca de adequação da linguagem em nível prático ao conceito filosófico de compreensão e convívio com o mundo. Em um intrincado questionamento entre o que vem a ser real e irreal, qual seriam nossos limites em conformidade com a percepção do existir? E ainda: De que maneira se dá o nosso convívio com a inexistência e a que ponto nós absorvemos sua influencia? • Apresentação: Neste pequeno ensaio, busco, enquanto artista plástico, elucidar minhas considerações no campo da contemporaneidade. Para tanto, atenho-me basicamente as minhas experiências, confiadas ao meu tempo de vida dedicado ao conhecimento e a prática desta matéria. Nascido em 1960, quando a historia transgredia a modernidade, em meio ao psicodelismo pop. Época esta, em que ser moderno era reinventar o tempo, transformando o espaço. Testemunhei a era do plástico e da fibra de vidro (novos materiais que resistiam à ação do tempo), e da televisão e dos foguetes (obras que nos transportavam para novos espaços). Neste período o indivíduo recompunha-se por completo, em seus hábitos e costumes adequando-se aos novos tempos. Atrevo-me a dizer que o indivíduo “plastificou-se”, na crença de perpetuar-se de corpo e alma, vencendo o desgaste da matéria e rompendo os limites do espaço, (surgiu o transplante de órgãos e o LSD), O homem reconheceu-se enquanto máquina e aflorou a divindade do seu inconsciente. O fato é que: naquele período, a arte tratou de experimentar esta “nova beleza” incorporando este “novo homem” (com seus materiais) a um “novo espaço” (com sua obra). Sou filho deste período, quando a arte abandonava os limites propostos pela antiga arte moderna, e lançava-se no espaço, procurando dar vida a novos materiais, (ou seja: estreitando as relações entre o homem e a nova era.) o período da comunicação sensorial, das experimentações cinéticas e cibernéticas. Sou, portanto, um herdeiro da relatividade e do fim do mundo. • O material e o tempo: Determinei o início de meu interesse pelas artes plásticas, (muito embora exerça esta pratica desde pequeno), com o aprendizado da gravura, por volta de 1978. Naquela época eu havia me mudado de São Paulo para Curitiba e trabalhava em um ateliê público; interessei-me principalmente pela gravura em metal, utilizando-me da aplicação técnica mais básica, a ponta seca sobre chapas de cobre. Meus experimentos aprofundaram-se na exploração de ranhuras sobre chapas de materiais diversos, e logo em seguida adotei chapas já ranhuradas pela ação do tempo (sucatas de ferro, e alumínio). Trabalhava sobrepondo formas e cores sem interferir diretamente sobre o material sucateado, mantendo, portanto, sua textura original e, muitas vezes, sem mesmo entintar estas chapas, aproveitando somente a coloração do material oxidado e da fuligem impregnada. Entendi com estes exercícios, que o registro da ação do tempo sobre a matéria denuncia e relata o contexto de sua história, cada pedaço de ferro trazia em si as marcas de sua existência. Mais tarde, de volta a São Paulo, de posse do conhecimento das técnicas de colagraf, explorei fartamente a composição de materiais diversos, na construção de matrizes. Essas matrizes reuniam pedaços de materiais, sugerindo construções aleatórias carregadas de emoções próprias oriundas das histórias particulares de cada material que as compunha. (as ranhuras de uma bandeja de pizza, somada ao pedaço da toalha de renda bordado pela avó de alguém, sobrepostos ao fundo de um banco de plástico.). Em razão disso, achei por bem, nomear esta serie de gravuras de “registros” e enumerá-las, (registro 01, registro 02, etc.), feito este que gerou algumas críticas, por parte dos meus colegas, sob a alegação de que arte não é simplesmente o registro de imagens aleatórias. Não pretendo aqui sugerir pretensiosamente qualquer posicionamento meu perante a arte, mesmo porque, não me julgo capaz de defini-la, julgo-me sim um artista. Mas não saberia dizer o que é isso, talvez uma necessidade humana, já que não me vejo outro, talvez uma vingança ao constante abandono irracional do sensível em detrimento ao pobre raciocínio prudente. De certa forma, acolhi tais críticas entendendo que meus “registros” eram em verdade, “cópias” das matrizes de minhas composições com materiais variados, e passei, portanto a admiti-las enquanto obras prontas, ou originais pictóricos, providos de força expressiva própria. Tornando, para mim, determinante que, a força expressiva é pertencente à ação sobre a matéria, (seja por seu desgaste ou por sua manufatura), e o tempo da ação descreve o espaço a que ela pertence (tornando o passado presente e classificando no tempo o espaço que lhe cabe.). • A obra e o espaço: Depois de ingressar na faculdade de belas artes, obtive conhecimento entre outras matérias, da história da arte e nesta matéria específica, entre outros tópicos, do movimento dadaísta. O que me permitiu uma associação cabível a minha experiência prática, mesmo já sendo escola estabelecida e uma poderosa referência para a pop arte e suas vertentes, o minimalismo e o conceitualismo que já se anunciavam vigorosos nesta época. A partir daí o “tempo-espaço” tornou-se o tópico dos estudos científicos avançados, anunciaram-se as contemporizações da meta física, estabelecia-se a meta linguagem e os meta-esquema. Minhas pinturas a essa altura, assumiam a característica de colagens, aglomerando e justapondo camadas de tecidos e texturas variadas com tintas espessas, sem considerar um resultado previsto, sendo que: hora, representavam imagens reconhecíveis e hora, exibiam-se abstrações puras. Eu as admirava e me satisfazia por entendê-las enquanto aglomerações, ou, melhor dizendo, enquanto formas e ou objetos isolados, transportados de uma realidade para acumular-se à outra, gerando novos espaços ilusórios e lúdicos, capazes de demonstrar sua origem histórica e ao mesmo tempo representar novos horizontes. Meu ateliê, situado no bairro de Moema, num pedaço de terreno que pertencia a uma marcenaria, ficava de frente para a rua, cujo movimento era intenso, e caótico. De certa forma, meus acúmulos pictóricos condiziam com a realidade deste entorno, e contemplava (ainda que timidamente), que o individuo, ou o individual neste contexto pouco importa, ou seja: não há contrastes. Quando ocorre, (como um acidente de carro, na esquina, por exemplo.) a dinâmica se encarrega de absorvê-lo rapidamente e o fato se dilui na normalidade do contexto, desprezando, quase que por completo, fatores específicos (como a senhora grávida que se machucou, por exemplo), isso pertence a outro universo, e é imediatamente transferido para o espaço que lhe cabe. Cabe dizer que, entendo a arte, enquanto representação filosófica da realidade humana, e me parece plausível e inerente a constatação de fatos. A construção do espaço, portanto, atém-se a núcleos temáticos genéricos, e o indivíduo por si só, é um desses núcleos, (bem como as cidades, as residências, os hospitais, etc.). O fato é que, todo espaço solidifica-se recolhendo referências de outros espaços, determinando de forma seletiva, o valor ou a importância de cada referência, em favor da unidade. Nesse sentido, um objeto ou parte dele, quando deslocado de seu contexto, ainda que inutilizado, trará inevitavelmente consigo, as referências históricas de seu contexto de origem, sendo, portanto uma referência temática que alude a um determinado espaço. (uma obra só será nada, se surgir do nada, e se sua materialidade for absolutamente irreconhecível.). A arte por volta do ano 2000 (o fim do mundo) exilou-se em contemporizações conceituais, a tecnologia ampliou o espaço televisivo em dimensões incomensuráveis (até então), a meta física confirmou-se, a ciência rumou para universos interiores e exteriores, e o individuo diluiu-se em massa e mínimo. Eu me mudei para o interior, com minha mulher e meus três queridos filhos, trazendo em mim os acúmulos que me cabem, o silêncio aqui é enorme, os recursos parcos, mas o tempo me permitiu rever espaços. Em meu mínimo; Acúmulos inusitados do acaso, como: esculturas em borracha escolar, interferências em páginas de revistas velhas, e matrizes pictóricas em tramas de alumínio. Em minha massa; Espaços que acomodam estes afazeres diários em núcleos de acúmulos. Pretendo prosseguir no tempo, refletindo sobre a pertinência das ilusões em conjunção com as formas e os espaços, ainda que a unidade insista em transformar indivíduos em fantasmas. • Considerações estéticas: 1- Hábito de Habitat Volto a repetir que não pretendo determinar diretrizes, mas sim, sugerir reflexões que contribuam para a compreensão do individuo em seu meio; e com isso, elucidar minha própria incompreensão e desconforto, enquanto artista dedicado ao conhecimento do sensível. Sinto em mim, um constante impulso de adequação; Não é um desejo, é uma necessidade de tentar tornar palpável, por intermédio do visível, a razão da minha existência. Supondo, que sejamos o que pensamos ser, o espaço em que nos vemos (nosso habitat) será, portanto, a construção desse pensamento. Para tanto, permito-me o pré-suposto de considerar genericamente a habitação (ou Habitat), enquanto “espaço de abrigo”, o que obviamente nos permite deduzir e refletir sobre “espaço interior”. Reconheço na atividade do meu interior um mecanismo vital, que comporta ações fisiológicas e psíquicas concomitantes. O espaço da minha fisiologia, (ou seja: meu sistema orgânico) reage aos comandos da minha psique, tão somente para nutrir-me de agentes que me permitam ser (ou existir). O ser, no sentido de existir, implica no reconhecimento palpável de si, (eu me toco), por intermédio do visível (eu me vejo). Portanto, se há interior há que haver exterior. Obviamente, com base neste fato, eu só poderia afirmar minha existência, para além de meu ser, visto que, o sistema que permite reconhecer-me, enquanto ser, é absolutamente inadequado para meu espaço interior. Sendo assim, curiosamente, eu só me vejo no sentido inverso a mim, ciente de que este mesmo sistema inverso nutre organicamente meu abrigo interior e fornece elementos que me permitem reagir psiquicamente em defesa de meu abrigo. Posso concluir, portanto, que o ambiente que nos circunda, refere-se exclusivamente a nós, (eu estou aqui e agora, porque, eu me vejo aqui e agora) e tudo o que vemos a nossa volta, direciona-se a nós da mesma forma com que nos vemos. Nesse sentido, a realidade palpável seria o inverso de nós mesmos, e estaríamos caminhando no sentido contrario a nós mesmos. Essa me parece ser uma boa justificativa para o nosso comportamento predador e autodestrutivo, bem como me parece ser um bom parâmetro para o sentido da palavra “universo”, (estaríamos nós procurando unir o verso?). Ou seja: se assim for, a imagem que temos de nós é o “registro” de nossa própria história, e o ambiente em que nos reconhecemos nada mais é do que o acúmulo dessa mesma história. Mesmo porque, é sabido que o tempo que levamos para reconstruir nossa imagem no espaço é diferente (ainda que em bilionésimos de segundos) do momento de qualquer ocorrência; A partir de nós, a realidade estará sempre no passado. De alguma maneira, buscar o nosso reconhecimento no passado nos permite vislumbrar o futuro, prova disso é que, somente depois de reconhecermos a doença somos capazes de prevenir e estabelecer a cura. A prevenção, para nós é uma reação ao que de alguma forma já ocorreu; Não se pode, sequer, supor uma previsão sem que se “anteveja o futuro”. Ainda assim, essa antevisão, se processa de maneira extremamente particular e seletiva, de acordo com os acúmulos de experiências da história individual. Tais particularidades são os caracteres que enumeram o indivíduo dentre os semelhantes, o livre arbítrio de enxergar-se em seu lugar, e então aferir referências a outrem. Podemos dizer então, que construímos nosso passado a partir dos acúmulos de nossas referências, e antevemos nosso futuro, selecionando tais referências. Tanto o passado quanto o futuro, nada mais são, do que o espaço de tempo de nossa existência; Podemos então, reconhecê-lo enquanto ambiente de vida, ou ”habitat”, ou ainda “o espaço onde coletamos, selecionamos e acumulamos nossos hábitos”. 2- O retrato do ser e a natureza do estar: O ser é intrínseco ao existir (eu sou eu porque existo, um objeto o é por existir), assim sendo nada me difere de um objeto, tudo que vemos e tocamos existe na mesma intensidade. No entanto, eu sou humano e um objeto é inanimado, (eu sou eu porque “assim” existo) e o “estado do meu ser” me forma no espaço e me torna humano. Poderemos então afirmar que, minha forma de existir é humana, ou ainda, sou uma forma humana. Obviamente que assim sendo me diferencio de outras formas existentes, da mesma maneira, sou semelhante a tantas outras a tal ponto que me reconheço e me “conformo” com tamanha semelhança. O termo “conformar” estreita esta semelhança entre as formas, de tal sorte que a entendemos ou julgamos serem iguais. A igualdade então seria um conceito de semelhanças ou “coincidência” formais, estabelecido pelo sistema comparativo das imagens que coletamos e acumulamos no espaço. Então, nossa afirmativa de ser, nos assegura dessa existência com base em nossos iguais (eu sou eu porque existo assim como você.) e permite que compreendamos nosso espaço conformados à nossa semelhança. Portanto, minha imagem conforme nossa semelhança indica que estamos aqui, ou seja, “daí” eu sei que estou aqui. Entendo ser esta uma prova contundente da inversão de imagens que nos faz compreender o espaço. Assim sendo, posso crer também que nossa ação no espaço deriva dessa imagem, ou seja, a copia da ação (ou a repetição) sustenta a igualdade de nossa imagem e constrói nossa história. Contudo, se considerarmos que a imagem que temos desta ação, ocorre por semelhança (ainda que de tão próxima nos faça considerar igual.) estaríamos de certa maneira, inventando a imagem desta ação. Assim sendo, poder-se-ia afirmar que nossas ações são projeções de imagens no espaço. (Gostaria de ressaltar que o termo inventar, refere-se á priore, tornar visível e palpável o desconhecido, fazendo com que se reconheça enquanto verdadeiro.). Portanto, a ação de nossa imagem assegura o bem estar de nosso ser, construindo no espaço a historia da existência. Permitam-me dizer: A imaginação inventa o espaço. Compreendendo o espaço, enquanto ambiente do ser, suas ações no interior deste, são determinantes para o desígnio de seu estado (eu estou aqui porque sou assim). No entanto, o ser pode estar concomitantemente no interior de seu ambiente interno e externo, porque o estado do ser refere-se a dois ambientes aparentemente distintos e com ações mecânicas diferentes, muito embora a imagem de si seja a mesma nos dois espaços (eu estou assim aqui porque sou assim). Sendo, contudo, espaços intercambiáveis (Eu estou assim, mas não sou assim, porém estou aqui ou ainda... Eu estou assim agora, mas não sou assim sempre, porém estou aqui). O estado do ser refere-se tanto a sua forma quanto ao seu lugar de acordo com o espaço de tempo dado ao seu reconhecimento. Nós nos formamos nestes espaços e informamos os mesmos a despeito de nosso estado. Considerando-se o espaço interno do ser enquanto acumulo de imagens cognitivas (códigos das imagens colhidas) a fim de comportar o excesso de informações externas, visto que se trata de um ambiente aparentemente menor. Os códigos das imagens imaginam construções no espaço interior do ser mais rapidamente que o reflexo das imagens no interior de seu espaço externo. Note que, para nós, tudo que se refere ao exterior do ser, restringe-se ao interior de outro espaço determinado por nossa própria imaginação. Podemos então reafirmar que tudo que existe a partir de nós restringe-se e direciona-se a nós mesmos, visto que o que não existe é nada (portanto “o nada” não pode ser ou estar no espaço na forma que compreendemos); O nada é a inexistência da forma e consequentemente do espaço. Note também que toda forma contida no espaço, contem em si outro espaço, portanto, forma é a formação do espaço (do mínimo ao máximo dos incomensuráveis, mesmo que impenetráveis). Considera-se então que nada se forma além da imaginação, por isso, não podemos nos conformar com o nada, ou melhor, com a inexistência. O nada é nesse sentido, a negação de nós mesmos. 3- Aspirações da forma e expirações do ser Sabendo-se que a imaginação constrói nossos espaços, sendo ela pertencente ao nosso ser, podemos também compreender por derivação que o estado do ser seja fruto desse fenômeno. O que nos levaria a afirmar que nosso estado é imaginário (Eu imagino o que é bom ou ruim para mim). Poderíamos então considerar que nossa imaginação seja um extenso ambiente no interior do ser, que aspira do exterior todas as formas existentes. Inclusive nós mesmos, pelo fato de nos reconhecermos a partir de nós. (Imagino o que sou) Posso ilustrar metaforicamente, como sedo o buraco negro de nosso universo interior. A imaginação, portanto, nos oferece todas as possibilidades de ação, ou melhor, dizendo, todas as possibilidades de projeção no espaço. (Imagino o que sou e como estou) Cabe a nós, experimentar novas conformidades reconhecíveis, ou melhor, inventar a realidade (o que e como eu quero ser). Como já disse anteriormente o termo “inventar” trata de tornar verdadeiro o desconhecido. O futuro para nós nada mais seria que a expiração para o real, ou seja, almejar um novo espaço para abrigar o ser, projetando no exterior o reflexo das ações que experimentamos. Contudo a maior de todas as curiosidades é não ser possível, desta maneira, reconhecer com precisão quem somos. Visto que, tudo o que reconhecemos existe a partir de nós, inclusive nós mesmos. A partir daqui cabe-nos somente conjecturas, ou por assim dizer, buscar no universo do imaginário (nosso buraco negro), selecionar e acumular conformidades inventivas que ”ilumine” o pensamento. Sem antes esclarecer que o pensamento é o nome que se da ao mecanismo seletivo e comparativo do imaginário. Sugiro a palavra “intelejir”, trazer imagens para dentro, (inteligência). Quero também deixar claro que minhas conjecturas tomam por base as considerações estéticas que venho abordando até aqui, sob o enfoque da imagem enquanto compreensão do real. Proponho retomar o tema extraindo do texto duas referências distintas com as quais estamos tratando até então: dentro e fora. Vimos que em verdade, tudo esta dentro, e que o fora é inexistente. Naturalmente consideramos que aquilo que vemos esta à nossa frente, e o que não vemos fica para trás, no entanto, muito embora nosso ponto cego esteja fora de nosso campo de visão, o consideramos dentro deste mesmo ambiente. Portanto, o que vemos não corresponde exatamente ao todo deste espaço, embora saibamos com exatidão onde estamos não podemos antever as ações que por ventura atinjam-nos por trás, o que de certa forma torna nosso espaço de abrigo ineficaz. Podemos então subdividir este espaço em dois, ”frente” e “costas”, (sempre tomando por referencia o nosso ser), e determinando assim que, para frente avançaremos e para trás recuaremos. Fazemos isso sem nos dar conta de que, seja qual for o espaço em que nos encontramos não haverá costas, isso porque para qualquer lado que nos voltemos (incluindo acima e abaixo) tudo se direcionará a nós, portanto em qualquer sentido estaremos indo em frente. Curiosamente consideramos a nosso favor tudo que vem de encontro aos nossos olhos, e somos temerosos com o lado obscuro do ser. Posso destacar que geralmente damos as costas a tudo o que for considerado ineficaz, ou seja, deixamos para traz aquilo que não nos serve, portanto, atribuímos o negativo ao lado obscuro do ser. Creio que tal fato ocorra (comparativamente) em função de nosso sistema orgânico. É notável também que “não vemos com bons olhos” aquilo que esteja de costas para nós, ou que nos ultrapasse no sentido favorável. Quer me parecer que nosso bem estar depende de quando tudo esteja de frente para nós e que nós estejamos à frente de tudo. Ilustrativamente, seria como puxar o mundo em nossa direção para encobrir o lado obscuro, ou esclarecer, ou seja, o humano precisa da existência para ser e para tanto torna a razão precisa. Claro e escuro, frente e costas, dentro e fora, um dois, um dois, um dois... Eis ai nossa constante subdivisão espacial. Podemos assim concluir que somos seres binários, tudo o que se refere a nós ou de nós provém tem, indiscutivelmente, dois lados que se complementam nesta constância rítmica. (o nosso conceito tri dimensional é: frente e costas, esquerda e direita, acima e abaixo.). Podemos por semelhança atribuir este fato ao nosso próprio conceito de vida, o ritmo cardíaco. Nosso órgão vital é um espaço cuja forma esta em constante retração e expansão, consequentemente todo o nosso ser obedece a este comando. Vamos então reiterar que sendo o ser tudo aquilo que existe a partir de nós, supostamente tudo que existe esta em constante pulsação. Podemos então definir simbolicamente que todas as formas que existem respiram, pois tudo tem dois lados que interagem. Supostamente, o ritmo dessa pulsação define-se por contração e expansão, sendo que sua notabilidade depende do tempo que levamos para reconhecer visualmente esta ação. Considerando que o tempo seja uma unidade de medida do espaço, e este espaço subdivide-se em negativo e positivo, obviamente que nosso tempo ocorre nos dois sentidos inversos. Desta maneira poderemos supor que uma forma considerada inanimada respira em uma freqüência tão negativa, que não nos é possível reconhecer sua ação no espaço, sendo que no sentido inverso isso também ocorreria. Porém, sendo cada forma um espaço, sua ação negativa é incidente, ou seja, refere-se ao seu espaço interno, portanto só nos cabe ver o que ela expira. Sendo assim, nós enquanto formas, aspiramos expirações de outras formas e expiramos somente metade de nossas aspirações. A outra parte incidiria ao nosso espaço interno, caracterizando literalmente que comemos formas com os olhos. (afinal esta é a função dos nossos sentidos, alimentar nosso interior a partir do exterior) Processo esse, perfeitamente compatível com nossa fisiologia. Cabe ai perguntar: para onde vai o excremento da visão? A resposta mais plausível seria o lixo inorgânico. (portanto não ingerimos o corpo físico da forma) Nossa visão alimenta-se de maneira telepática, por meio de um sistema televisivo. Assim sendo a decomposição da matéria determina o fim do objeto e seu espaço, o que podemos denominar como sendo a morte da forma. Porem a imagem desta forma permanecerá no interior de nosso ser e vamos espirá-la no espaço exterior, compondo outras formas iguais e ou semelhantes, concebendo assim sua existência progressiva. Fazendo com que essa forma futura traga em si os benefícios de sua existência passada somada ao espaço de sua nova existência, que novamente iremos aspirar.  4- A iluminação do invisível e a obscuridade da deteriorização Eu sou uma forma no espaço e me certifico disso olhando ao meu redor, portanto o espaço me circunda. Sendo assim, eu sou o centro deste espaço e, portanto, eu sou o espaço da minha forma. A partir do meu centro eu vejo apenas a metade do meu espaço, portanto, eu não sou apenas aquilo que vejo. Eu só vejo aquilo que existe no espaço, portanto, metade de mim não existe. Obviamente que o conceito de existir vem antes do conceito de ser, portanto, eu sou uma forma no espaço porque o meu espaço existe. Eu sou o meu espaço e, portanto, metade do que sou esta neste espaço assim como a metade do que não sou. Nesse sentido eu existo antes de ser o que vejo que sou; Eu existo porque estou no espaço. Sendo assim a forma que reconheço de mim esta assim no meu espaço. (eu estou assim, mas, não sou assim). Considerando-se que sou aquilo que existe, matematicamente o centro do meu ser é zero. Posso considerar então, que o estado da minha forma é um momento fracionado, entre o meu futuro e o meu passado. Metade de mim existe porque já passou e metade não existe porque não passou, o presente seria, portanto, a minha inexistência. Então, me parece determinante que a forma no espaço é uma constante de mutação. O espaço, portanto, compõe-se de ocorrências visíveis conformadas ao invisível, a partir do seu centro. Quero salientar que vemos de acordo com nosso sistema de seleção, ou seja, o que existe em um determinado momento pode deixar de existir no momento seguinte. Não vemos tudo o que existe no nosso espaço ao mesmo tempo, estamos constantemente combinando o invisível ao visível, o que nos permite supor, que o centro de nosso espaço esteja em constante movimento. Sendo assim posso dizer que o estado do meu ser transita entre o passado e o futuro deste ser, posso estar aquilo que imaginei ser no passado bem como posso estar o que nunca imaginei ser. Da mesma maneira, posso ver somente aquilo que já conheço, bem como posso ver aquilo que nuca existiu. Posso destacar também a titulo de curiosidade, que aquilo que vemos com maior freqüência, pertence ao grupo das formas utilitárias, portanto, esta em constante adequação ao novo. O estado do meu ser condiz necessariamente, com o meu desejo de ser ou ver, ou ainda, para ser ou ver o que quero tenho que confrontar-me com o que não vejo e não sou, e, portanto, sempre serei aquilo que não sou partindo daquilo que sou. Portanto, caso eu queira ver apenas o que nunca vi (portanto, nunca existiu), eu terei que abrir mão de tudo que existe, deixando de estar no meu espaço. O estado do meu ser então retirar-se-ia do ser, levando consigo tudo que não existe, portanto, o ser permaneceria na forma inalterada do passado. O que supostamente nos leva a crer que o futuro também permaneceria inalterado na inexistência. Assim sendo o estado do meu ser só permanecerá em mutação, quando, somado a novas possibilidades de existir, ainda que meu espaço torne-se invisível. Toda forma no espaço torna-se visível ou invisível a partir do real, conforme a minha posição no espaço. A inexistência então é parte determinante do real, assim sendo não pertence ao nada. O nada, portanto, seria o inverso de todas as considerações possíveis, tanto de expansão quanto de contração. Seria algo tão real que a estagnação que podemos conceber não sustenta, visto assim, existir é uma ilusão do estável que desintegra o ser. Iludir é a necessidade primária para o estado de mutação, o qual não permite a estabilidade do ser. Estamos o que pensamos ser. • Considerações finais Parece-me, que se ontem eu estive macaco, amanha eu posso estar extraterrestre. Minha forma não veio e nem vai para lugar nenhum, porque ir e vir são um conceito de existência, e a minha forma não existe completamente. Realmente somos uma massa devoradora de partículas espaciais. Nossa missão é conformar nosso espaço para estar no ser, a fim de assegurar que nossa forma pulsante não se dissolva na estabilidade do nada. A estética trata da ética do estar, assegurando que estamos tão belos quanto um universo estelar. Antes de terminar este ensaio, quero afirmar que tenho consciência da superficialidade de minhas abordagens deixando em aberto o aprofundamento e detalhamento de tantas vertentes que este tema propõe. Ainda assim, desejo honestamente estar contribuindo para a compreensão das enigmáticas maravilhas contraídas em nossos interiores para que possamos expandir, em ilusões do eternamente pulsante ser. Quero dedicar meu esforço, a todas as células multiformes que transitam no espaço deste descomunal organismo cósmico, empreendedoras de saber onde estão, ainda que por caminhos tão resistentes e inusitados, com o desejo de eclodirem em partículas purificadas. Meu desejo mais profundo, é que nossas ilusões colham do invisível toda a fragilidade e sutileza na sabedoria do nosso estado de ser. E cada um de nós, transforme-se do obscuro fantasma em transparências visíveis. --
-Laerth Motta--- AQUI

4 comentários:

laerth motta disse...

Nossa!, por essa eu não esperava!!!!!!!
um grande abraço meu amigo.

laerth motta disse...

oBS: Devo alertar que o capitulo -3- foi repetido por um erro meu...Perdão

Lengo D'Noronha disse...

Figuraço o Laerth!
Este enorme 'resumo' é um contêiner de considerações lúcidas acerca das artes plásticas neste nosso tempo.
O mimetismo a que se refere tanto vale à sua vida como a outros tantos artistas que como mariposas noturnas ficam a procura de uma fonte de luz.
Abraços ao autor e ao Eduardo divulgador.

Eduardo P.L disse...

Laerth,

Antonio,

obrigado pelas observações!

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