O escultor
Israel Kislansky, um dos mais aguerridos defensores da fundição artística no Brasil, lamenta que a técnica esteja morrendo
por Fernanda Lopes
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Ele me cumprimentou e logo pediu desculpas pelo atraso, mas na verdade eu é que havia chegado mais cedo. Pontualmente às 15h de uma tarde abafada de maio, o escultor Israel Kislansky entrou em seu ateliê, no bairro paulistano de Pinheiros. Vestindo um conjunto de calça jeans e camiseta branca, sorriu aliviado — certamente porque, para estar ali, naquele recinto silencioso, abarrotado de estátuas de corpos humanos, precisou vencer o trânsito lento da barulhenta rua Teodoro Sampaio.
Kislansky é um dos mais respeitados escultores brasileiros a fazer uso da milenar técnica da fundição artística, processo em que metais são derretidos e moldados para se transformarem em peças tão variadas como um pequeno candelabro ou um monumento de praça. Aos 43 anos, o baiano perdeu a conta de quantas obras já produziu. "Creio que em torno de cem", arrisca. Não que o artista aceite qualquer encomenda. Só confeccionou brindes triviais, placas e prêmios em bronze no início da carreira. Hoje, ele pode escolher as peças que deseja produzir. A mais recente foi um busto encomendado pela embaixada do Líbano para homenagear o ex-primeiro ministro Rafik Hariri, morto num atentado em fevereiro de 2005. O judeu Kislansky o admirava. O corpo humano sempre o fascinou. Ainda criança, o escultor demonstrava grande interesse pelo assunto. Em Salvador, cidade onde nasceu, não via televisão sem manter por perto papel e lápis, que usava para reproduzir com perfeição os personagens que apareciam na tela. Em 1983, cursando artes visuais na Faculdade Santa Marcelina, de São Paulo, começou a trabalhar com argila, seguindo logo depois para a fundição. Sua primeira peça, um nu feminino em bronze, possui 90 centímetros de altura e está até hoje guardada em seu ateliê. Kislansky nunca se atreveu a lhe dar um nome.
DELITOA fundição era considerada um delito no Brasil do século 18. Para Portugal, ter especialistas dessa técnica por aqui significaria correr o risco de incentivar a fabricação de uma moeda nacional, o que favoreceria a independência comercial e política da colônia. Devido à proibição, o primeiro monumento cívico brasileiro, uma homenagem a dom Pedro 1o, teve de ser produzido em Paris. A peça de 3,30 metros de altura, concebida por João Maximiano Mafra em parceria com Louis Rochet, chegou de navio ao Rio de Janeiro e foi colocada na praça Tiradentes em 1862. Encontra-se lá ainda hoje, tentando preservar a fidalguia diante de pichações e da falta de conservação.
Nas últimas décadas, apesar de as leis já não conspirarem contra a fundição artística, a técnica está se perdendo no país. Um cenário desolador que angustia Kislansky. "Infelizmente, poucos dos que dominam a arte da fundição se preocupam em transmiti-la para os escultores mais novos", lamenta o artista. Enquanto não consegue realizar o sonho de criar um centro de referência na área, ele dá aulas sobre o tema em São Paulo para 50 alunos. Também ministra palestras com regularidade em Belo Horizonte, Florianópolis, Salvador, Rio, Porto Alegre, Recife e Brasília. Todas sempre lotadas.Os esforços de Kislansky, porém, não impedem que seu ateliê venha se transformando. O espaço, antes ocupado quase que inteiramente por materiais para fundição, agora abriga um número cada vez maior de madeira, gesso e cerâmica. Num dos cantos, o fogo continua acesso, pronto para derreter os metais, mas, se algo não mudar em breve, as chamas poderão se apagar.
Escultura Vanackeriana II (2005), do artista baiano Israel Kislansky. O trabalho é feito em bronze